Lobo X Jaritataca

4 de maio de 2009 Sem comentários

lobo x jaritataca

Tudo corria normalmente no Santuário do Caraça. Era o dia 04 de maio de 2009. E como sempre o Guará, um filhote desta vez, se alimentava durante a noite. De repente, algo inusitado: chega a jaritataca (Conepatus semistriatus). Sua chegada não foi surpresa, mas sim o fato de ela comer com o Guará, juntos na mesma bandeja, o que antes ainda não tinha acontecido. Geralmente, quando se encontravam no adro da Igreja, o lobo se retirava.

No dia seguinte, o Guará estava comendo novamente. Mas desta vez era o lobo adulto, o macho que domina o território do Caraça. E a jaritataca chegou. O lobo rosnou para ela, rosnou de novo, e nada! A jaritataca, certamente confiando em sua arma de defesa, a urina fétida que ela solta contra seus agressores, foi se aproximando da comida.
O lobo não pensou duas vezes: atacou a jaritataca pelas costas, levantou-a e a jogou num canto da escadaria. E fugiu. Ele certamente sabia o que ainda iria acontecer… A jaritataca, ainda desnorteada com a fúria e a mordida do lobo, levantou o rabo, soltou seu fedor e saiu cambaleando, certamente ferida…

Na hora, ninguém percebeu, mas alguns segundos depois, todos se retiraram, correndo desesperados, procurando um banho quente para se limpar do mau cheiro. O adro da Igreja ficou intransitável por pelo menos 40 minutos.
Depois deste tempo e já limpos e banhados, e com as roupas trocadas, aos poucos fomos voltando para o adro da Igreja, e ainda pudemos contemplar a beleza caracense expressa em sua fauna tão rica. Outros lobos vieram comer… E outras jaritatacas também vieram comer…

No dia seguinte, o encontro se deu novamente, mas desta vez com um filhote de lobo. A jaritataca, não a do incidente, mas outra, com certo receio, quando viu o lobo chegando, fugiu pelos balaustres da escadaria do Irmão Lourenço, numa prova atroz de equilíbrio e extinto de preservação.

Um outro tempo, uma outra jaritataca… e o mesmo fedor!

(O Centenário do Caraça, 1920)

“Frank não era um artista; era mais um dilettante em desenho. Homem de bastantes conhecimentos em sciencias naturaes, falava regularmente seis línguas e conhecia bem o grego e o hebraico. Negociava em diversos gêneros, e foi para satisfazer a alguns amigos da Europa que veio ao Caraça em busca de algumas espécimes da flora e da fauna caracense que Martius e St. Hilaire tinham revelado aos sábios do Velho Mundo. Aqui no convívio dos Padres, nesta solidão recolhida, deixou-se sua alma influenciar pelo meio a tal ponto que abjurou o judaísmo e se fez baptizar na Igreja. Dava educação religiosa aos filhos e consta que nos últimos tempos tinha aprazado um franciscano para pôr ordem em seus negócios. Uma apoplexia fulminou-o no banho, em 1905, em Petrópolis, onde residia.

De sua estada no Caraça ficaram duas lembranças. Uma é a descoberta que fez do remédio para curar radicalmente a asthma de que elle soffria já de algum tempo.
Um dia, sahia elle para suas excursões botânicas alli para os lados da Verruguinha, que fica uma boa légua da Casa. É um agradabilíssimo passeio, por ser quasi plano, sobretudo quando se margeia o rio. À esquerda de quem vai, esgueiram-se para o céu os picos que olham para Cattas-Altas: a Carapuça que mede 19 metros, o Beiço do Diabo, – um enorme gilvaz, aberto no rosto da montanha, – o Caraça, donde vem o nome para todo o lugar.

 À direita, a paisagem menos accidentada, não é menos pittoresca. Comoros mansos, cobertos de verde relva, toucados, no alto, de frondoso matto; nesgas de arvoredos solitários e enfileirando-se em estudada desordem, acompanham as sinuosidades dos veios de água; lá ao longe uma palmeira extraviada, balançando mollemente sua verde palma sobre a copa das outras arvores, e, fazendo fundo a toda essa paisagem, margeando o rio, além do encanto da surpresa de cada um desses quadros, que se mostram aos poucos, ainda gosa do mimoso tapete de relva baixa que avelluda toda a longa várzea, onde o gado manso pasce tranquillo.
Era por alli que seguia, em dia freco, o Sr. Frank, ora recolhendo uma planta nova para seu herbário, ora admirando uma flor; parando aqui, para focalizar em sua retina o panorama que descortinava, voltando alli, para divisar melhor uma dobra da serra.
De repente, a poucos passos adeante no trilho, avista um animalzinho pouco menor que um gato, pêlo fino e sedoso, malhado de pintas brancas, caminhando sem receio. Vel-o o Sr. Frank, desensarilhar a espingarda, que lhe pendia do hombro, fazer fogo e matal-o, foi um instante. Contentíssimo com a rica presa, corre a apanhal-a. nunca vira semelhante animal.
Mas, que insuportável cheiro que lhe estonteia a cabeça! Pensa que é alguma erva, que pisou, e, sem mais, põe nagiberna o animalsinho que estertorava ainda. O odor acre e nauseabundo augmenta. Parece que se lhe colla nas papillas nasaes. Vai carregar a epsingarda e o mesmo cheio parece que se desprende mais forte do cano da arma; passa a mão no rosto, parece que é sua mão que exhala aquella insupportavel essência, uma lufada de vento agita-lhe a barba longa e espêssa, é da barba que lhe vem aquelle cheiro estonteador!… Fica um momento apatetado, pensa que é victima de uma allucinação repentina!… Nunca sentiu cheiro assim. O estomago começa a revoltar-se e náuseas sêccas lhe sobem desde lá!…

Será o animalsinho? pergunta a si mesmo. E com geito todo delicado, tira-o da giberna para cheiral-o, e, emquanto o approxima do nariz, algumas gottas de um liquido turvo, secretadas pelo animal morto, pingam-lhe na roupa e humectam a mão. Não há mais duvida. É aquillo. E atira para longe o cadáver do animal. Corre ao rio, lava as mãos, lava a giberna, lava a roupa, lava-se inteiro… Era tarde; o nauseabundo fétido parecia ter-se impregnado na própria pelle… Era uma tortura atroz… Em vez de diminuir com o tempo, parecia que duplicava sua intensidade odorante, aquelle nauseante fedor. Não ha hesitar. Vou para casa mudar de roupa e procurar um remédio contra este cheiro horrível que me suffoca. Assim fez.
A primeira pessoa que encontrou, levando a mão ao nariz, exclama: Jaratataca! Jara… jara… jaratataca… balbucia o pobre Frank, sem poder atinar com a pronuncia. Jaratataca – repete o outro, – um bichinho muito bonito, malhado de branco, mas que fede muito.
Era a primeira vez que o naturalista ouvia o nome popular da mephytes suffocans dos sábios. Desta vez conhecia-lhe bem os effeitos odorantes. Para se descartar de tão desagradável cheiro, levou seu heroísmo até o ponto de sacrificar sua longa e bella barba loura. Foi, como elle mesmo confessava depois, o maior sacrifício que fez, e teria ainda feito muito mais com tanto que se pudesse livrar de tão incommoda essência.
Mas à quelque chose malheur est bom, dizem os franceses. O Sr. Frank que soffria, como dissemos, de uma impertinente asthma, e, nesse dia sentia-se um pouco atacado, nada sentiu o resto do dia, apesar do banho frio que tomou e do muito tempo que passou à beira do rio a se lavar e lavar seus objectos. Desse dia em deante, nunca mais soffreu um só accesso da terrível moléstia e attribuia sua cura radical ao nauseabundo e suffocante cheiro da mephytesque dalli por deante elle aprendeu a chamar – Jaratataca.

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