​Biodiversidade na Baixada Caracense​

31 de maio de 2017 Sem comentários

O mistério da mata

A espécie humana evoluiu nas savanas africanas, um habitat aberto, claro e ensolarado. Ali era possível ver o inimigo ou o predador que vinha de longe, o que dava mais segurança a nossos antepassados, podendo preparar suas defesas ou escapar. Talvez por sermos savanícolas, alguns de nós sentem-se oprimidos em ambientes fechados e sombrios, tais como as florestas. E, talvez por isso, a espécie humana também tenha a péssima mania de ser a grande destruidora das matas. Florestas são, no folclore, locais de criaturas sobrenaturais amedrontadoras – o saci, o curupira, os trolls, os pés-grandes e seus derivados.

Na baixada caracense, já ouvi história de lobisomem nas matas, mas nunca o vi nem ouvi. No entanto, aqui apresento uma criatura verídica e misteriosa de nossas florestas. E não é nada assustadora, nem feiosa – é um passarinho e até bonitinho. Chama-se macuquinho e seu nome científico é Eleoscytalopus indigoticus. Caminha pelo piso das florestas e quase nunca é visto, mas escutado. Sua voz é alta, rouca e trinada. D. Rosilda, do Sumidouro, disse que, quando era criança e catava lenha na mata, ouvia esta voz vindo das brenhas. Achava que era cobra cantando e batia em retirada, muitas vezes deixando o feixe de lenha para trás. Não só ela, mas todos que a acompanhavam.

O macuquinho (Eleoscytalopus indigoticus). Aquarela: M. F. Vasconcelos.

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Em 1996 comecei a fazer um levantamento das aves da região do Caraça, desde a baixada (Sumidouro) aos altos picos. Naquela época não tinha acesso à internet e não existiam sites que continham gravações de vozes de aves. Quando se tinha sorte, ganhava-se uma fita cassete ou um CD com cantos de aves. Mas não havia muita coisa e o aprendizado de um aspirante a ornitólogo costumava demorar bem mais que atualmente. Nesta fase, eu havia ganhado de presente da amiga Lívia Lins um CD que trazia o canto do macuquinho. Por ser uma voz tão característica1, guardei-a na memória e, numa nublada manhã em minha mata, ouvi-a. Fiquei muito empolgado com aquele registro, especialmente por ser uma espécie restrita à Mata Atlântica. E continuei a ouvir esta voz em várias outras manhãs até que, num final de tarde de 1998, andando na mata com o primo (e então herpetólogo), Carlos Henrique, ouvimos o canto e exclamei: “O macuquinho!”. Ele retrucou: “Não, é o sapo-de-chifre!”, referindo-se a Proceratophrys boiei, um anfíbio que também só ocorre na Mata Atlântica e vive no chão da mata. E agora? Poderia estar eu, de fato, enganado, já que nunca tinha visto a ave?

A partir daí, gravei a voz do CD numa fita cassete e bati atrás da criatura misteriosa, reproduzindo sua vocalização com o antigo gravador TCM-5000EV, um ‘tanque de guerra’ para o observador (e coletor) de aves. Foi numa manhã de 2002 que eu tive a sorte de ver o primeiro macuquinho na baixada caracense. Aproximou-se da gravação, caminhando pelo chão da mata. Primeiramente, vi apenas a relva mover-se até minha botina, mas nada do bicho. Passados uns minutos, desceu um pouco a colina e se escondeu atrás de uma samambaiaçu. Cantava dentro de uma reentrância no caule desta planta e o som parecia vir de outra direção (e mais alto!). Eu continuava a tocar a gravação, até que, depois de alguns minutos neste duelo, a ave mostrou sua cabeça e pude vê-la com a definição necessária para ter a certeza que era mesmo o macuquinho! Eu estava certo, mas meu primo também poderia estar naquela tarde de 1998, já que, depois, encontrei o sapo-de-chifre na mesma mata. Foi quando li um artigo escrito por um renomado pesquisador francês, que apontava a semelhança entre as vozes da ave e do sapo (Vielliard, J.M.E. 1990. Estudo bioacústico das aves do Brasil: o gênero Scytalopus. Ararajuba, 1:5-18). Tempos depois, aprendi a diferenciar o canto dos dois e hoje até acho que são bem distintos.

Macuquinhos empalhados, coletados pelo príncipe de Wied, atualmente depositados no Museu Americano de História Natural. Fotos: M. F. Vasconcelos.

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Tão intrigante quanto matar esta charada, é como esta ave foi coletada há exatos dois séculos pelo príncipe alemão Maximilian Alexander Philipp zu Wied-Neuwied (1782-1867). Em uma visita ao Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, pude ver os dois exemplares coletados na Bahia por tão notável naturalista. Como o príncipe teria conseguido ver aves tão sorrateiras e até atirar nelas sem a ajuda de um gravador? Acho que foi sorte, mas o que importa é que, graças ao príncipe, a espécie foi apresentada à Ciência no ano de 1831, por meio de descrição feita por ele mesmo.​

​1 Ver exemplos nos sites: http://www.xeno-canto.org/ e http://www.wikiaves.com/​

O fato é que não devemos temer os mistérios de nossas matas, mas procurar elucidá-los para que caminhemos sem medo na floresta – e nem tenhamos vontade de derrubá-la.

Marcelo Ferreira de Vasconcelos

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