​Biodiversidade na Baixada Caracense​

20 de março de 2018


Mil árvores marcadas

​Quantas e quais espécies de árvores podemos encontrar em um pedaço de mato na Baixada Caracense? Foi com estas indagações que, no início do ano passado, marquei 1.000 árvores na minha mata (Capão da Coruja, antiga Fazenda Bocaina), no Sumidouro. Não foi uma tarefa tão simples. Antes de iniciar as atividades de campo, tive de ajuntar muitas latinhas de refrigerante, que foram cortadas para a confecção de etiquetas, sendo cada uma manualmente furada e numerada.

Após esses preparativos, contei com a ajuda de um exímio conhecedor das árvores da região: o Sr. Sílvio Tomaz Ferreira, que trabalhara parte da vida cortando árvores a machado, numa época em que nossas matas serviam de combustível para as siderúrgicas, há cerca de cinco décadas. Apesar de atualmente isto não soar bem, esta era a realidade de nossa região naqueles tempos. No entanto, por ser tão hábil lenhador, e nativo da região, o Sr. Sílvio é um dos últimos sumidourenses com grande conhecimento etnobotânico.

Foram necessários oito dias para marcar as 1.000 árvores, sempre na companhia do Sr. Sílvio, que me passou informações muito importantes sobre os nomes regionais e a utilização da maioria delas. Iniciamos pela parte mais baixa da mata, a cerca de 760 m de altitude e seguimos morro acima, até a cota de 870 m. Dessas, o Sr. Sílvio conseguiu identificar 50 etnoespécies correspondentes a 573 indivíduos. Dentre as mais abundantes, destacaram-se a “farinha-seca” (80 indivíduos), a “goiabeira” (74) e o “canudo” (55). No entanto, 427 árvores foram consideradas como desconhecidas por ele. Ressalte-se que mais de uma espécie pode ser tratada por um mesmo nome popular. Isto ficou claro no caso das “goiabeiras”, representantes da família Myrtaceae, que englobam, no mínimo, três espécies distintas. O mesmo é válido para o que é comumente chamado de “araticum” e “pindaíba” (ambas da família Annonaceae) e “canela” (Lauraceae).

Dr. Marcelo Ferreira de Vasconcelos Biólogo e Naturalista​

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No meu caso, um naturalista, consegui identificar 623 indivíduos em nível de família, sendo as mais abundantes: Fabaceae (120 árvores), Sapindaceae (119), Myrtaceae (82), Annonaceae (67), Euphorbiaceae (67) e Erythroxylaceae (53). Outras 16 famílias botânicas foram representadas por menos de 25 indivíduos e 377 árvores ainda não puderam ser identificadas. Um total de 309 árvores, representantes de 21 gêneros, foi identificado até este nível taxonômico. Constam os seguintes gêneros e suas respectivas abundâncias, em ordem decrescente: Matayba (75 indivíduos), Mabea (54), Erythroxylum (53), Copaifera (36), Tibouchina (21), Tapirira (10), Siparuna (8), Guatteria (7), Xylopia (7), Cecropia (6), Cabralea (5), Cassia (5), Croton (5), Hortia (4), Inga (4), Eremanthus (3), Luehea (2), Zanthoxylum (1), Lacistema (1), Solanum (1) e Syagrus (1). Dentro desta amostra, apenas 153 árvores marcadas puderam ser identificadas até espécie, com os seguintes números de indivíduos: Mabea fistulifera – “canudo de pito” (54), Erythroxylum pelleterianum (53), Tapirira obtusa – “pau-pombo” (10), Guatteria vilosissima (7), Cabralea canjerana – “canjerana” (5), Cassia ferruginea – “canafístula” (5), Croton urucurana – “sangra-d’água” (5), Cecropia hololeuca – “embaúba-branca” (4), Hortia brasiliana – “para-tudo” (4), Cecropia pachystachya (2), Eremanthus crotonoides (2), Lacistema pubescens (1) e Syagrus romanzoffiana – “jerivá” (1). Um total assustador de 847 árvores ainda necessita ser identificado a nível específico! É mais espantoso que algumas espécies ainda não foram citadas para a adjacente RPPN-Santuário do Caraça, com base em uma recente revisão de sua flora (Ferreira, M.A.D. 2015. Flora fanerogâmica da Serra do Caraça, Minas Gerais, Brasil: composição florística e o paradoxo das áreas exaustivamente coletadas. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte). São elas: Croton urucurana (“sangra-d’água”), Hortia brasiliana (“para-tudo”) e Syagrus romanzoffiana (“jerivá”). No entanto, é bem provável que ocorram nessa reserva, dada a proximidade da área de estudo com a RPPN.

Estes resultados mostram que as perguntas levantadas no início desta matéria estão longe de serem respondidas. Ainda serão necessários muitos anos de estudos botânicos para se conhecer a riqueza de arbóreas de um pequeno fragmento de mata de nossa região. Estes resultados também mostram quão diversas são nossas florestas, mesmo tendo regenerado após o abate há poucas décadas. Então, a marcação de 1.000 árvores é apenas um primeiro passo para se conhecer um pouco do que temos. Além disso, milhares de outras árvores, certamente representantes de espécies distintas das já marcadas, ocorrem nesta mata. O desafio para identificar essas espécies é o que enche a alma do naturalista da vontade de aprender, cada dia, um pouquinho a mais sobre nossa biodiversidade.

Agradeço imensamente ao Sr. Sílvio pela companhia nos trabalhos de campo e pelos importantes ensinamentos sobre as árvores da Baixada Caracense.

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