

“Logo a seguir à bênção, o Colégio movimentou-se em direção ao refeitório para a ceia costumeira. Da janela do meu quarto pude assistir ao desfile feito em ordem: os meninos, os médios, os grandes, e finalmente os apostólicos, pouco mais de uns trinta, em 1892.
As diversas divisões instalaram-se na vetusta sala do refeitório, em suas mesas muito compridas e assás estreitas. Após as preces invocando as bênçãos do Senhor para aquelas rações frugais – e por ser aquela a última ceia do ano letivo – o Superior tocou a campainha, e de todas as bocas estrugiu um Deo gratias, que dava direito a falar, a gritar, a discutir, mas não a brigar. Era um barulho ensurdecedor que repercutia nos nossos ouvidos, no pequeno quarto onde nos encontrávamos o Ayala e eu. Depois a campainha restaurou o silêncio e foram recitadas em comum as orações de ação de graças. Todos volveram a seus salões onde, durante meia hora, a gritaria reboava ainda por entre as montanhas gigantescas da Ermida de Nossa Senhora. Às oito horas o sino da divisão dos médios tocou o silêncio, as orações e o caminho do dormitório para o sono reparador necessário às longas viagens para os lares saudosos, que se iniciariam no dia subseqüente. Coube-nos a nós os hóspedes a vez de irmos cear. (...)
Às nove horas estávamos, o Ayala e eu, nos nossos leitos e nenhum de nós teve coragem de quebrar aquele pesado silêncio do claustro, para comentar, mesmo em voz baixa, as impressões que ambos recebemos durante as poucas horas decorridas do nosso primeiro dia de Caraça.
O corpo aquecido por dois grossos cobertores e a cabeça esquentada por copo e meio de um vinho encorpado e generoso, dormi como um justo para só me levantar no dia seguinte às seis da manhã, com o ruído das botas dos alunos entrando na igreja para a missa da comunhão geral. (...) E depois da missa tornei à cela. Naquele mesmo dia, após a missa solene, devíamos entrar, como entramos, para o salão dos meninos. Era um estágio de três semanas obrigatório antes de se obter o prêmio de fazer parte dos apostólicos, com o privilégio, entre muitos, de participar do precioso conteúdo dos dois imensos bolsos da enorme batina do Padre Boavida...”
Joaquim de Salles, jornalista e político, em Se não me falha a memória.
Ex-aluno que chegou ao Caraça no dia 28 de junho de 1892 para estudar na Escola Apostólica