Dom Antônio Ferreira Viçoso, C.M. – Um estímulo à vocação vicentina e à consagração missionária

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Padre Marcus Alexandre Mendes de Andrade, C.M.

Guimarães Rosa, em sua obra póstuma Estas Estórias, diz que “as estórias não se desprendem apenas do narrador, sim o performam; narrar é resistir”. As estórias contadas e a história vivida individualmente e em comunidade não apenas se desprendem das pessoas, como resultado de suas escolhas e decisões. As histórias também performam, isto é, vão sendo construídas sob a graça de Deus e impulsionadas pelo Espírito do Senhor de tal forma que vão se tornando regra de vida, formando as pessoas envolvidas à luz do Mistério Pascal de Jesus Cristo. As histórias não são apenas narrações sem sentimentos ou sem objetivos, sem causas e sem intenções. As histórias vão construindo as pessoas e colocando-as, se abertas à graça de Deus, na perspectiva do Reino. Daí a importância das narrações. “Narrar é resistir”. Todas as vezes que uma história é contada, seus fatos e episódios são atualizados para o tempo presente. Se esta história é a história concreta de um santo, de alguém que não teve medo de ser desafiado pelo Evangelho e de se colocar sob a ação do Espírito, mais ainda esta história terá sabores de resistência e será útil a todos quantos a ouvirem. Será resistência diante de um mundo que muitas vezes não quer se converter ou quer relegar a fé ao campo do individualismo neoliberal. Será resistência quando a dor dos insucessos e das frustrações invadir o coração dos consagrados e dos fiéis. Será resistência quando faltarem motivações para se manter fiel e perseverante no seguimento de Jesus.

Os relatos que aqui serão apresentados, versando sobre a vida de Dom Viçoso, devem ser olhados nesta perspectiva: resistência profética diante de uma Igreja com poucos ícones vivos a serem seguidos; resistência apostólica diante de um comodismo que vem afrontando o zelo missionário; resistência carismática diante de uma institucionalização deformada do espírito de São Vicente.

1. Antônio Ferreira Viçoso: Missionário da Congregação da Missão

Antonio Ferreira Viçoso nasceu em Peniche, Portugal, no dia 13 de maio de 1787. Educado na fé cristã e nas virtudes por seus pais, Jacinto Ferreira Viçoso e Maria Gertrudes, com 09 anos foi enviado para o Convento dos Carmelitas para estudar as primeiras letras. Alimentando o desejo de se consagrar a Deus como presbítero, entrou no Seminário de Santarém aos 14 anos, onde ficou até os 21, esperando a idade mínima para ser ordenado padre. De brilhante inteligência e facilidade para o magistério, foi encarregado nos últimos dois anos do ensino do Latim no próprio Seminário. Questões de somenos importância na Diocese impossibilitaram a ordenação de Antônio, o que o fez voltar para sua casa a fim de cultivar, junto de sua família, sua vocação até o dia em que pudesse ser ordenado.
Em casa, alimentou ainda mais o desejo de se consagrar, e agora não só como padre, mas especialmente numa Congregação Religiosa, na qual pudesse trilhar, com mais radicalidade, o caminho do seguimento de Jesus. Entrando em contato com a Congregação da Missão, na cidade de Rilhafolles, pediu para ser admitido entre os filhos de São Vicente. Depois de várias tentativas, finalmente adentrou a Pequena Companhia no dia 25 de julho de 1811. Após o tempo de formação inicial, emitiu seus votos perpétuos no dia 26 de julho de 1813. A seguir, dedicou-se ao aprofundamento dos estudos e das ciências sagradas. Foi ordenado padre no dia 07 de março de 1818 e logo foi enviado para o Seminário de Évora para lecionar Filosofia.

Obediente à vontade de Deus que se revela nas grandes necessidades de seu povo, Antônio acolheu o pedido da Congregação para trabalhar nas missões do Brasil, especificamente na Capitania do Mato Grosso, para a qual iria tendo como companheiro e superior o Padre Leandro Rebelo Peixoto e Castro. Incendiados pelo zelo missionário e pelo desejo de converter o mundo para Deus, partiram de Lisboa no dia 27 de setembro de 1819 e chegaram ao Rio de Janeiro em fins de novembro. Ardia no coração do Missionário o desejo de ser dom de amor para a humanidade, compartilhando suas dores e esperanças. Para tanto, afastava continuamente de seu coração a “tentação de se considerar somente mero delegado ou apenas representante da comunidade, mas projetava-se como um dom para ela, pela unção do Espírito e por sua especial união com Cristo” (Documento de Aparecida 193).

Estando em terras brasileiras e recebidos pela Coroa Portuguesa, desde 1808 sediada no Rio de Janeiro, os Padres Leandro e Antônio ficaram sabendo que a missão para a qual foram chamados já estava ocupada por um Capuchinho. Com isso, foi-lhes oferecido o Santuário do Caraça, no coração da Província das Minas Gerais, o antigo Santuário do recém-falecido Irmão Lourenço de Nossa Senhora (+ 27 de outubro de 1819), que o entregara ao Rei para que pudessem ser enviados para lá padres para o cuidado e a manutenção do Santuário e do centro de romaria e missão.

Aceitando a doação, partiram do Rio de Janeiro no mês de fevereiro e chegaram ao Caraça no dia 15 de abril de 1820. Logo em junho, iniciaram o cumprimento do motivo pelo qual deixaram Portugal, cumprindo também assim o testamento do Irmão Lourenço, que era fazer do Santuário um centro de missão. Os dois padres foram para Catas Altas e ali, durante todo um mês, pregaram as missões ao povo, confessaram uma infinidade de pessoas, administraram sacramentos, ensinaram a catequese e etc. Dali, seguiram para Barbacena, para outra jornada missionária. Após estas missões, Padre Viçoso voltou para o Caraça, enquanto Padre Leandro foi ao Rio de Janeiro, de onde trouxe os primeiros quatro alunos para o nascente Colégio do Caraça.
Padre Viçoso foi, no Colégio do Caraça, sua grande alma, educando a juventude, orientando os estudos e primando pela excelência acadêmica na transmissão dos conteúdos humanísticos. Associando o conhecimento teórico à vida concreta e aos valores éticos fundamentais para a vida humana, Padre Viçoso e seus Coirmãos da Congregação fizeram do Caraça o maior centro irradiador da intelectualidade do Brasil de então, sendo o mais célebre, importante e duradouro Colégio que o Brasil conheceu até seu incêndio em 1968.

A fama do Caraça era tão grande já em seus primórdios e a capacidade magisterial de seus fundadores tão reconhecida que, em 1822, a pedido do Príncipe Regente, futuro Dom Pedro I, Padre Antônio Viçoso foi convocado para cuidar do Seminário de Jacuecanga, responsável pelo acolhimento e educação de meninos no Rio de Janeiro, uma das muitas obras do célebre Irmão Joaquim do Livramento.

Depois de 15 anos em Jacuecanga, anos de dedicação esmerada, zelo incontido, testemunho eloqüente e vigor missionário, em 1837, Padre Viçoso voltou para o Caraça e, devido às complicações diplomáticas entre o Império do Brasil e a Corte Portuguesa, foi eleito Superior Geral da Congregação da Missão no Brasil. Seu título, equiparado mutatis mutandi ao do Superior Geral da França, não o fez diferente. Ao contrário, colocou-o ainda mais a serviço das missões, da educação da juventude e de seus Coirmãos.

Em 1842, estando à frente do Colégio do Caraça, e por medo da Revolução que colocava a Província de Minas contra o Império, decidiu transferir o Colégio para Campo Belo da Farinha Podre (hoje Campina Verde-MG), levando para lá alguns alunos (a grande parte foi levada para Congonhas do Campo-MG, onde a Congregação mantinha outro Colégio), escravos, livros e outros bens. Esta verdadeira epopéia, de pelo menos 700Km, durou mais de quarenta dias, levando Padre Viçoso para os sertões das Minas Gerais, onde seu zelo e seu testemunho missionário a muitos instruíram e santificaram.

Ocupado com seus trabalhos em Campo Belo, Padre Viçoso recebeu a nomeação de Dom Pedro II para ser Bispo de Mariana, cuja Sé estava vacante desde 28 de setembro de 1835, data do falecimento de Dom Frei José da Santíssima Trindade. Depois de muito relutar, aconselhado por seus Coirmãos, decidiu aceitar esta nomeação e colocar-se inteiramente nas mãos de Deus, que o chamara para ser Missionário e agora lhe entregava uma imensa Diocese, que compreendia quase todo o atual Estado de Minas Gerais. Para responder positivamente a Sua Majestade e esperar a confirmação do Papa, Padre Viçoso viajou para o Rio de Janeiro. Não se acomodando durante a espera da sagração, aceitou uma difícil missão na Bahia: cuidar da reestruturação da Ordem dos Carmelitas da Bahia, difícil tarefa devido à indisciplina dos frades e à má vontade de seus superiores em pôr ordem àquela situação.

Depois de realizada esta missão, Padre Viçoso voltou para o Rio de Janeiro e foi sagrado bispo no dia 05 de maio de 1844. Desejoso de iluminar seu rebanho com algumas palavras e colocar-se à disposição de Deus para o cuidado da grei que lhe fora confiada, escreveu de imediato uma Carta Pastoral a sua Diocese, verdadeiro projeto episcopal de serviço ao Povo de Deus e retrato fiel do que seria seus 31 anos à frente daquela importante Igreja diocesana: “Pode-se considerar o Bispo como um servo de todos os seus diocesanos, servo que, com a tocha na mão, vai adiante, para iluminar-lhes o caminho na noite tenebrosa desta vida, notar-lhes os tropeços e precipícios que lhes podem servir de ruína na jornada, até colocá-los junto à porta do Céu, abri-la e com eles entrar!” .

2. Antônio Ferreira Viçoso: Bispo Missionário de Mariana

De fato, os 31 anos de ministério episcopal de Dom Viçoso à frente de Mariana foram um tempo áureo da graça de Deus, em que o Bispo se deixou ser servo fiel, obediente ao Senhor e disposto a acolher as demandas do povo em seu coração, buscando com todas as forças e possibilidades sarar-lhes as feridas e apontar-lhes caminhos. Mais do que nunca, seu desejo era “viver o amor a Jesus Cristo e à Igreja na intimidade da oração e da doação de si mesmo aos irmãos e irmãs, a quem presidia na caridade” (Documento de Aparecida 186). Sua missão era amar na radicalidade o povo marianense, sendo para ele um verdadeiro pastor, que, sofrendo e se alegrando com suas ovelhas, pudesse tornar palpável o Reino de Deus por todos esperado.

Na citada Carta Pastoral, Dom Viçoso apresentou seu desejo de trabalhar unido ao Clero, e não contra ele, alimentando intrigas e divisões.

Queria ser, e o foi de fato, bispo servidor e pai dos padres, aos quais conclamava para a seriedade do trabalho pastoral, para o estudo constante e para o testemunho de uma vida conforme o Bom Pastor. Quanto às vocações, às quais dedicou muitos esforços, não só no acompanhamento dos seminaristas como no incremento dos Seminários, conseguiu muitos frutos, como a constituição de um dos presbitérios mais importantes e preclaros da Igreja do Brasil. Em seus escritos e em sua vida, não se cansou de dizer que o verdadeiro padre deveria ser servidor, expressão clara da autenticidade de sua vocação. Ao povo, especialmente àquelas pessoas mais influentes, foi categórico: a ascensão social não podia acontecer a partir da opressão dos pequenos e da subjugação dos mais pobres. A salvação era dom de Deus que devia ser acolhido na realidade da vida de cada um e em todos os setores da sociedade.

Para cuidar e formar um Clero renovado e verdadeiramente servidor do povo, reabriu o Seminário Diocesano, há alguns anos fechado. Junto ao Seminário, ainda abriu um Colégio Episcopal, fruto de suas preocupações com a educação da mocidade e a formação de homens de caráter e vida ética irrepreensível. O Seminário de Filosofia e Teologia (Maior) entregou aos seus Coirmãos da Congregação da Missão em 1853, e, em 1855, entregou-lhes o Colégio Episcopal (Seminário Menor), onde aplicavam-se ao ensino de Humanidades. Antes, porém, de entregar-lhes o Colégio, o próprio Dom Viçoso foi ali morar, a fim de acompanhar de perto, com zelo de pastor e educador e espírito missionário, a educação dos meninos.

Seu zelo pela formação do Clero, tanto dos seminaristas quanto dos já ordenados, era tão grande que, em meio a tantas ocupações, visitas pastorais e atendimento do povo, Dom Viçoso ainda tinha tempo para traduzir livros de espiritualidade, moral e teologia, tendo em vista a formação contínua de seu presbitério e o favorecimento do bom atendimento do povo. Nos casos mais complicados e delicados, não tinha medo nem receio de visitar o padre que estava em situações problemáticas, escutar suas questões, escrever-lhe dando luzes… Suspensão ou repreensões eram realizadas apenas quando todos os outros meios se esgotavam e não se via esperança nenhuma de emenda e reparação dos erros. No dizer de Dom Silvério Gomes Pimenta, seu primeiro biógrafo e depois seu sucessor na Sé Marianense, Dom Viçoso em nenhum momento “carregava a mão com rigor, senão depois de esgotar os meios de suavidade”.

Junto a esses esforços na formação do Clero, Dom Viçoso dedicou-se vigorosamente às obras de caridade, como bom filho de São Vicente. Esmolando pessoalmente, criando campanhas a serem feitas nas Igrejas e encaminhando formas de manutenção permanente de suas obras, Dom Viçoso investiu e fortaleceu a dimensão caritativa de Mariana. Em 1848, fundou uma casa para meninos órfãos e pobres, logo depois fundou uma outra casa para outros 12 meninos. A partir de 1849, com o auxílio das Irmãs Filhas da Caridade, que o próprio Bispo solicitou ao Superior Geral de então, Padre João Batista Etienne, C.M., pôde fundar a obra caritativa para as órfãs e para as meninas pobres, um hospital e o Colégio Providência, para a educação também das meninas mais abastadas da cidade, a quem era negado, por força dos tempos, todo tipo de educação formal. O cuidado com esses órfãos e com o hospital, especialmente dedicado a pobres e loucas, foi, no coração de Dom Viçoso, ponto central de suas preocupações, que o acompanhou até a morte, quando disse que seu último desejo era o contínuo cuidado e amparo das órfãs e doentes.

Seu episcopado esteve também marcado pelo conflito entre a Igreja e o Império, especialmente a partir das invectivas da maçonaria, grande influenciadora do Império no tempo de Dom Pedro II, de minar a autoridade da Igreja, fazendo-a servidora do poder temporal, apregoando o deísmo, o fim do Evangelho como regra de vida e a liberdade filosófica, política e social sem estar fundamentada em Deus. Em uma Carta Pastoral, escrita a 18 de setembro de 1857, Dom Viçoso, criticado por não aceitar as arbitrariedades do Império ao substituir e nomear cônegos e párocos e impor leis e regras para o Seminário sem sua participação ou desconsiderando sua opinião e jurisdição, escreveu: “Confio na misericórdia de Deus que me dará ânimo para sofrer os cárceres, o desterro e o mais; lembrando-me que foi sempre a sorte da Igreja de Deus sofrer em silêncio”.

Para defender a Igreja, sua liberdade e autoridade, Dom Viçoso estava disposto, inclusive, a ser preso e condenado pelo Império. O que ele não poderia aceitar era a dependência total da Igreja às leis imperiais, arbitrariamente lidas e interpretadas para benefício de interesses particulares e político-partidários e nunca em vista do bem comum e da glória de Deus: “É para lamentar que tenham mais liberdade os católicos da Inglaterra e da China, países protestantes e gentios, do que no Brasil, onde a Religião dominante é a católica. Deus não pode abençoar tais abusos e escravidão” (Carta ao Presidente da Província de Minas, 06 de maio de 1856). Mesmo aceitando o Imperador como Padroeiro da Igreja e que as nomeações para benefícios passassem por suas mãos, antes mesmo que Roma definisse e elegesse ou o Bispo diocesano confirmasse, o chamado Direito do Padroado, Dom Viçoso sempre foi ardente defensor da liberdade da Igreja e não se cansava de condenar a tutela do Império e os desmandos do Governo civil, que queria se beneficiar com todas as transferências, com todas as taxas e dízimos e com todas as nomeações.

A chamada Questão Religiosa, que levou à prisão os Bispos de Olinda e do Pará, e os conflitos com a maçonaria, especialmente a campanha para abolir da Constituição o artigo 5, que prescrevia a Religião Católica como oficial, e decretar de uma vez por todas a subserviência da Igreja ao Império, desconsiderando a pessoa do Papa, levou Dom Viçoso, acusado por seus opositores de ser decrépito, sem condições de governar a Diocese e sem opinião própria, sendo facilmente controlado e iludido pelos jesuítas, a protestar abertamente ao Imperador, mesmo correndo o risco de ser punido e preso como os outros Bispos. Na altura de seus 86 anos, sua voz estava intrépida e firme; seu zelo pelo bem do povo, decidido e inquestionável; sua postura, clara e profética: “Somos 12 Bispos católicos no Brasil, intimamente unidos, e sujeitos ao Sumo Pontífice, como os 12 Apóstolos estavam a São Pedro. O nosso crime (ou a nossa glória) é esta sujeição, união e obediência [ao Papa]. Ao escrever e protestar esta minha adesão, chega o correio oficial de 4 deste janeiro com a notícia da prisão do Sr. Bispo de Pernambuco (…). Senhor, Vossa Majestade sabe que não tenho cavalos nem carruagens que me possam ser tiradas. Também não me podem prender em calabouço, porque em calabouço estou metido, sendo Bispo há 30 anos, e tendo de idade quase 90. Pôr-me-ão em liberdade se me tirarem desta masmorra do Bispado, ainda que lhes pareça que me mandam para outra pior prisão. Inspire Deus a Vossa Majestade e a seus Ministros pensamentos de paz (…) em circunstâncias tão críticas como estas em que nos achamos”.

Apesar de não tomar partido nas questões políticas, cada vez mais acirradas por causa das contestações monárquicas, da maçonaria e outros movimentos anticlericais, Dom Viçoso nunca se eximiu de sua responsabilidade de pastor e guia de um rebanho, de homem inserido numa sociedade específica e criador de opinião. Orientando o Clero, condena o uso da liturgia para discussões político-partidárias, mas orienta os pregadores a não deixarem de exercer seu papel de formadores de consciência e de esclarecedores do povo simples e, muitas vezes, apático diante de tantas questões: “O sacerdote que na pregação da Palavra divina, esquecendo-se do respeito devido à cadeira cristã, a transformasse em tribuna, ou somente fizesse alusões mais ou menos diretas aos negócios públicos, e aqueles que neles tomam parte, esse teria comprometido os augustos interesses da religião. Recomendamos a todos os Reverendos Oradores que se aproveitem do muito que há de dizer nesses discursos sobre as qualidades dos eleitores, sobre a liberdade dos votos, sobre a invocação das luzes do Divino Espírito, sobre as doçuras da paz e mil coisas, que Deus lhes inspirará, no que lhes encarregamos a sua consciência”. Essa orientação era de vital importância porque em muitos casos a divisão política começava a gerar mortes e graves divisões na população. Para o santo Bispo, a Igreja não poderia estar em tais confusões, sob pena de trair o próprio Evangelho da vida. Era preciso, pois, fomentar o amor e a paz, a concórdia e a reconciliação, a partir do esclarecimento das consciências à luz da Palavra do Senhor.

3. Antônio Ferreira Viçoso: Visitador de seu Povo e Pregador do Evangelho

Como pregoeiro da paz e do amor, da justiça e da vida que brota do Evangelho, Dom Viçoso percorreu léguas e léguas em suas visitas pastorais. Visitou toda sua imensa Diocese por três vezes, gastando pelo menos seis anos para cada uma das visitas. Certo de que uma das mais importantes ocupações do Bispo é o ofício de visitar seu rebanho, quando não mais tinha condições de fazê-lo pessoalmente, nomeou, em 1868, alguns presbíteros como visitadores regionais, a fim de não deixar, em hipótese alguma, seu povo sem as palavras confortadoras da pregação e o auxílio necessário da presença do Pastor. De 1844, data de sua sagração e de sua primeira visita pastoral, até 1868, em todos os anos Dom Viçoso se aplicou a este intento, com exceção do ano de 1855, em que estava morando no Seminário Menor, para ajudar em sua condução, e ainda ocupava-se com a reforma do Palácio Episcopal. Geralmente, mas não como regra, suas visitas eram feitas de maio a outubro, pois nos outros meses várias questões comprometiam as viagens e o bom fruto das visitas.

Em cada uma de suas visitas, grande tempo era empregado para as pregações, que ele fazia com toda ternura e eloqüência, zelo e autoridade. Quando não fazia as duas prescritas para o dia, como era costume, pelo menos uma ele proferia, deixando a outra para um dos padres que sempre o acompanhavam. Ademais, ocupava seu tempo com as crismas, a catequese para as crianças, o atendimento do povo e várias audiências. Todas essas atividades ocupavam o Bispo desde a manhã, iniciada com a celebração da Santa Missa, até altas horas da noite, nas quais não transparecia cansaço nem abatimento, mas tão somente zelo pelo seu rebanho e disposição de doar toda a vida para o bem do povo a ele confiado. Ao final da visita, ainda deixava uma carta pastoral resumindo todo o feito e apontando luzes para o pároco local.

Infelizmente, não se tem o relatório completo de suas visitas. Muitos documentos se perderam e muitas visitas não foram registradas. No entanto, aquelas de que se tem registro dão uma noção clara de como era exaustivo o ofício do Bispo de Mariana e de como se empregava às visitas pastorais. Tendo assumido o Bispado em 1844, logo em setembro foi a Congonhas do Campo, para encontrar seu rebanho, reunido por ocasião do Jubileu do Bom Jesus do Matozinhos. Pouco tempo depois, ficou cinco dias em Congonhas do Sabará, iniciando oficialmente seu roteiro de visitas pastorais. Em 1845, a 30 de setembro, Dom Viçoso foi para Juiz de Fora, quase nos limites de sua imensa Diocese. Em 1846, a 24 de maio, esteve em Ponte Nova; a 25 de maio, em Santa Cruz dos Escalvados; a 28 de junho, em Cachoeira do Campo; a 27 de outubro, em Tapanhoacanga; a 08 de dezembro, em Macaúbas. Em 1847, a 06 de julho, foi visitar Sabará. Em 1848, Dom Viçoso foi a Barbacena, a 21 de junho; em Turvo de Aiuruoca, a 23 de agosto; em Piedade do Cajuru, a 06 de dezembro. Em 1849, a 10 de junho, esteve em Lagoa Dourada; a 15 de junho, em Freguesia da Lage; a 19 de junho, em Santa Rita da Lage; a 25 de junho, em Prados; a 09 de julho, em Brumado; a 15 de julho, em São João del-Rei; a 25 de julho, em Conceição da Barrra; a 29 de julho, em Nazaré; a 02 de agosto, em Saco do Rio Grande; a 09 de agosto, em Rosário de Lavras; a 12 de agosto, em Ibituruna; a 24 de agosto, em Santo Antônio do Amparo; a 26 de agosto, em Sant’Ana do Jacaré; a 30 de agosto, em Cana Verde; a 02 de setembro, em Perdões; a 06 de setembro, em Vila de Lavras; a 14 de setembro, em São João Nepomuceno; a 19 de setembro, em Porto de Mendes; a 22 de setembro, em Espírito Santo de Coqueiros; a 28 de setembro, em Três Pontas; a 19 de outubro, em Carmo da Divisa; a 29 de outubro, em Iguapé; a 04 de novembro, em Dores da Boa Esperança; a 15 de novembro, em Campo Belo; a 03 de dezembro, em Oliveira; a 14 de dezembro, em Santiago. Em 1850, a 15 de junho, Dom Viçoso esteve em Lavras Novas; a 22 de junho, em Itabira; a 26 de junho, em Cachoeira; a 08 de julho, em São Gonçalo do Bação; a 04 de agosto, em Rio das Pedras; a 16 de agosto, em Bonfim; a 25 de agosto, em Santo Antonio do Rio Acima; a 05 de setembro, em Piedade de Baixo; a 13 de setembro, em Contagem; a 08 de outubro, em Itabira; a 10 de outubro, em São Bartolomeu. Em 1851, a 25 de junho, esteve em Marinard; a 02 de julho, em Piranga; a 11 de julho, em Dores do Turvo; a 15 de julho, em Conceição do Turvo; a 27 de julho, em São José do Turvo; a 01 de agosto, em Santa Rita do Turvo; a 04 de agosto, em Anta e Conceição do Anta; a 18 de agosto, em Turvão e depois em Presídio de São João Batista; a 11 de outubro, em Ubá; a 13 de outubro, em Presídio; a 16 de outubro, em São José do Paraobepa; a 21 de outubro, em Sapé; a 27 de novembro, em Conceição do Rio Novo; a 10 de dezembro, em Chapéu de Uvas. Em 1852, Dom Viçoso esteve, a 03 de setembro, em São Caetano; a 10 de outubro, em Abre Campo, de onde partiu para Bicudos, Santa Cruz, Saúde, Paulo Moreira e etc; a 04 de novembro, Paulo Moreira e depois Prata, Sant’Ana do Afié, Antonio Dias, São José da Lagoa, São Miguel de Piracicaba, Fonseca do Inficcionado e Itabira. Em 1853, a 31 de maio, esteve em Itabira; a 11 de junho, em São Sebastião das Correntes, depois Peçanha, São José de Jacuri, etc; a 31 de agosto, em Diamantina; a 14 de novembro, em Cidade da Conceição; e a 04 de agosto em Diamantina.

Em 1854, ano em que completava 10 anos à frente do Bispado de Mariana, seu entusiasmo era o mesmo do início, só que agora com muito mais experiência e conhecimento de sua Diocese. Neste ano, visitou, a 11 de junho, Taquaraçu, vindo de Roças Novas e indo para Macaúbas, Lapa, Santa Luzia e etc; a 06 de julho, esteve em Matozinhos, depois em Sabará, Pitangui, Aterrado, Bambuí, Pium-í, Formiga, Tamanduá, Cláudio, Japão e etc; a 30 de julho, esteve em Lagoa Santa; a 11 de setembro, em Pitangui; e a 05 de outubro, em Saúde de Bom Despacho. Em 1856, a 16 de setembro, esteve em Pomba, depois em Taboleiro, Piau, João Gomes, Dores e Quilombo; a 07 de outubro, em Chapéu de Uvas; e a 21 de novembro, em Bom Jardim. Em 1857, a 29 de maio, Dom Viçoso esteve em Cachoeira do Campo; a 18 de junho, em Rio Peixe e depois Oliveira; a 08 de agosto, em Itaruna e depois em Presídio de São João Batista; a 18 de agosto, em Rosário de Lavras; a 09 de setembro, em Presídio; a 18 de outubro em São Gonçalo da Campanha, onde se encontrou com o Bispo de São Paulo; a 27 de novembro, em Baependi, e a seguir Campo Belo, Angaí e Luminárias; a 02 de dezembro, em São Tomé, depois em Rio Grande, Ponte Nova, São João del-Rei e Lagoa Dourada. Em 1858, esteve a 03 de março em São João del-Rei e depois em Aiuruoca; a 14 de maio, em Itaverava, depois Dores, Glória de Queluz, Santo Amaro, Lagoa Dourada e São João del-Rei; a 20 de junho, em Morro do Chapéu e a seguir em Capela Nova das Dores; a 09 de julho, em Lagoa Dourada, a 12 de setembro, em Aiuruoca; a 08 de outubro, em Presídio, depois Ubá, São José do Paraopeba, Sapé, Meia Pataca, Santo Antonio do Porto, Santíssima Trindade, São João do Nepomuceno e Rio Novo; a 11 de outubro, em Pouso Real; a 03 de novembro, em Carandaí; e a 09 de novembro, em Queluz. Em 1859, Dom Viçoso esteve, a 13 de julho, em Jequeri; a 18 de julho, em Abre Campo, depois Vermelho, Santa Margarida, São José do Quati, Indaiá, São Francisco das Estrelas, Tombos, etc; a 09 de outubro, em Presídio de São João Batista; a 17 de outubro, em Ubá; a 29 de novembro, em Paraibuna; e em Queluz a 20 de dezembro. Em 1860, a 19 de agosto, esteve em Ponte Nova; a 31 de agosto, em Bicudos; a 11 de outubro, em Prata; a 23 de outubro, em Antonio Dias Abaixo, e depois em Itabira, Bom Jesus do Amparo, Taquarassu, Jaboticatubas e Jequetibá; a 07 de novembro, em Carmo de Ferros. Em 1861, esteve em Jequitibá, a 06 de agosto; a 25 de agosto, em Sete Lagoas; a 13 de setembro, em Santa Quitéria; a 03 de novembro, em Dores do Indaiá e Dores da Marmelada; e a 10 de dezembro em Bonfim. Em 1862, Dom Viçoso esteve em Morro Vermelho do Caeté, a 23 de julho; a 25 de julho, em Sabará; a 02 de agosto, em Mateus Leme, depois em Santana de São João, Cajuru, Espírito Santo e Itapecerica; a 04 de agosto, em Tejuco; a 09 de agosto, em Itapecerica; a 16 de agosto, em Santo Antonio do Monte; a 31 de outubro, em Formiga e depois Tamanduá. Em 1863, esteve em São Caetano, a 09 de maio; a 18 de julho, em Sabará; a 23 de julho, em Curral del-Rei; a 26 de julho, em Conceição do Turvo; a 07 de agosto, em Itabira; a 10 de setembro, em Oliveira; a 15 de setembro, em Itabira; a 19 de setembro, em Bonfim; a 27 de setembro, em Passa Tempo, depois Oliveira; a 05 de outubro, em São Miguel de Piracicaba; a 30 de outubro, em São João Nepomuceno de Lavras; a 17 de novembro, em Bom Sucesso; a 24 de novembro, em Nazaré, vindo de Amparo e indo para Conceição da Barra, Brumado e Congonhas; a 01 de dezembro, em Santa Rita de São João del-Rei; a 06 de dezembro, em Capela Nova do Desterro.

Em 1864, completando seus 20 anos de episcopado e quase 80 de idade, suas visitas mantiveram o ritmo da necessidade do povo, do zelo de seu pastor e da urgência da evangelização, embora um pouco dificultadas por sua idade avançada. Neste ano, a 30 de janeiro, esteve em Sabará; a 06 de abril, em Santa Bárbara; a 22 de abril, em Serro, depois Diamantina, onde esteve por ocasião da sagração de seu primeiro Bispo diocesano, Itabira, São Gonçalo, Cocais, Santa Bárbara, Caraça e Catas Altas; a 10 de junho, em Itabira; a 20 de julho, em Sabará; a 31 de julho, em Itaverava; a 06 de setembro, em Ponte Nova; a 29 de setembro, em Três Pontas; a 01 de novembro, em Bom Jesus dos Aflitos da Ponte do Sapucaí; a 03 de novembro, em Três Pontas, depois em Passos, Ventania, Carmo, Divisa, Motuca, Três Corações, Conceição do Rio Verde, São Tomé e São Vicente de Minas. Em 1865, a 16 de abril, Dom Viçoso esteve no Caraça; a 04 de julho, em Ouro Preto; a 18 de julho, em São Caetano do Chapotó, depois em São José do Chapotó, Remédios, Capela Nova das Dores, Glória, Vila Bela do Turvo e Campanha; a 13 de outubro, em Pouso Alto, depois São João del-Rei; a 17 de outubro, em Capivari. Em 1866, esteve, a 02 de abril, em São João del-Rei; a 13 de maio, em Serro; a 16 de agosto, em Ouro Preto, depois Santo Antonio da Casa Branca, Rio das Pedras, Santo Antonio do Rio Acima e Congonhas; e a 05 de setembro, em Pitangui.

Em 1867, ano em que completou 80 anos, esteve no Caraça, a 06 de maio, e em Calambau, a 09 de agosto. Em 1868, propriamente seu último ano de visita pastoral, devido à grande enfermidade que lhe sobreveio depois de sua viagem ao Rio de Janeiro no início de 1869, esteve em Macaúbas, a 20 de agosto; a 23 de outubro, nas Cabeceiras do Rio Sant’Ana de Abre Campo, depois em Santa Margarida, Santa Helena, Vermelho, Abre Campo, Bicudos e Barra Longa; a 31 de outubro, esteve em Matipó; e a 26 de novembro, em Santa Cruz.

Esta imensa, e infelizmente incompleta, lista de visitas pastorais é o melhor testemunho a respeito de Dom Viçoso, especialmente quanto ao seu zelo de pastor e às opções que fez em seu episcopado. Inegavelmente, o santo Bispo, tendo diante de si as multidões de seu rebanho, decidiu “dedicar tempo aos pobres, prestar a eles amável atenção, escutá-los com interesse, acompanhá-los nos momentos difíceis, escolhê-los para compartilhar horas, semanas ou anos de sua vida, procurando, a partir deles, a transformação de sua situação” (Documento de Aparecida 397).

Como pastor e responsável pela animação da vida espiritual e social de sua Diocese, Dom Viçoso sempre usou da pregação para se aproximar e instruir sua grei. Suas pregações, realizadas com ardor e unção onde quer que se encontrava, em sua Catedral ou durante as visitas pastorais, ganharam fama em toda a Diocese. Incansável missionário, por onde passou, Dom Viçoso deixou o bálsamo dos Sacramentos e a luz da Palavra de Deus. Ao final de sua vida, podia contar, com alegria e humildade, que, nos 31 anos de episcopado, percorreu e pregou em todas as Matrizes da Diocese e em quase todas as capelas, para muitas das quais deu autorização para se manter o Santíssimo Sacramento. Praticamente todo o povo diocesano teve oportunidade de escutar e se deixar tocar pela sabedoria e profundidade da pregação de Dom Viçoso. Ademais, quando estava em Mariana, pregava todos os domingos e dias de festa na Catedral, subindo duas e até três vezes ao púlpito. E sendo convidado para participar das festas dos padroeiros, sempre que podia aceitava, e, nestas ocasiões, mais uma vez aproveitava para instruir seu povo e santificar seu rebanho. Nestas pregações aproveitava para reacender o fervor da fé, instruir quanto às questões de fé, a regularização dos casamentos, a reconciliação dos inimigos e o fim dos escândalos.

Dos escândalos mais sérios que foram por ele combatidos, consta sua luta contra a escravidão e a tentativa de minimizar os sofrimentos dos negros escravizados. Sua vigorosa disposição em servir o povo e lutar por seus direitos fez com que não economizasse cartas e escritos contra a escravidão, mesmo que isso o colocasse em posição contrária a de seus mais ilustres amigos. Em um opúsculo escrito em 1840, antes mesmo de ser eleito bispo, intitulado Escravatura ofendida e defendida, escreve contrapondo-se a um “respeitável eclesiástico da Província de Minas”, possivelmente seu próprio coirmão Padre Leandro Rebelo Peixoto e Castro. Já como bispo, em outubro de 1850, não se exime de orientar um parlamentar sobre a questão: “Quanto à sua consulta se será bom… comprar africanos para a agricultura, eu digo que não é lícita tal compra, porquanto, enquanto houver quem cá os compre, haverá que os vá comprar (ou roubar) à África, coisa tão oposta à humanidade. Minha razão repugna. Eu não os tenho, nem os quero… Com os africanos, V. Sra. faria muito, é verdade, mas além de atrair a ira de Deus com esta barbaridade, empataria grande capital… e sendo o compadre um dos legisladores, daria com tal compra escândalo a muitos”.

Vendo o bem que suas visitas pastorais faziam ao povo, devido em parte ao abandono e às grandes extensões geográficas, quis por todas as maneiras instituir as Missões Perpétuas na Diocese de Mariana. Para tanto, começou uma grande campanha nas paróquias, solicitando a ajuda de todos para a manutenção dos missionários. Ele mesmo, aos 76 anos, começou a peregrinar pedindo esmolas, junto com outros dois padres. Fundando as Missões em 1862, seus frutos foram incontáveis. Em toda a Diocese, pelo menos dois ou três padres lazaristas ficavam por conta da pregação e da instrução do povo, nestas grandes jornadas missionárias, sempre alcançando graças e progressos inumeráveis. Anualmente, mais de 40000 confissões eram celebradas e pelo menos 400-500 casamentos eram assistidos pelos missionários.

Sua atuação episcopal foi tão marcante e benéfica para a Igreja, que três de seus discípulos imediatos foram eleitos bispos, sendo, durante seu ministério, verdadeiras pérolas do episcopado brasileiro. De Mariana saíram, tendo Dom Viçoso por mestre, amigo e estímulo, os bispos Dom João Antônio dos Santos, nomeado para a recém-criada Diocese de Diamantina-MG, Dom Luiz Antônio dos Santos, nomeado para Fortaleza-CE, e Dom Pedro Maria de Lacerda, nomeado para o Rio de Janeiro.

4. Antônio Ferreira Viçoso: Testemunha Fiel até a Morte

Idoso e enfraquecido, mas sempre atento aos clamores de seu rebanho e intrépido na defesa da fé, o santo Bispo de Mariana exalava santidade e era procurado por todos, inclusive por estrangeiros, pesquisadores e autoridades. E a todos impressionava, quer por sua singeleza ao acolher as pessoas, quer por sua inteligência ao discursar e ponderar as questões. Richard Burton, viajante inglês que esteve em Mariana pouco antes de 1870, foi um desses homens ilustres que, diante de Dom Viçoso, ficou impressionado com sua vida e seu ministério episcopal, deixando, inclusive, um relato sobre sua visita: “Procuramos o bispo, Dom Antônio Ferreira Viçoso, no Palácio, um grande e velho casarão, com o chapéu e as armas do Bispado na porta. O venerando sacerdote, que conta 80 anos de idade, ainda era um português, nas feições e na pronúncia; tinha o olhar brilhante e inteligente, e o rosto calmo e intelectual; estava vestido de cor-de-rosa, de acordo com a ordem que prescreve que o preto era para o padre, o vermelho (exemplo de derramar seu próprio sangue) para o cardeal e branco para o Papa. O Bispo recebeu-nos muito amavelmente, deu anel a oscular com muita paciência e levou-nos à biblioteca, de obras de teologia em sua maior parte, e enfeitada com fantasiosos medalhões e retratos de filósofos clássicos. (…) O Reverendíssimo é muito conceituado, e muito tem feito pela educação eclesiástica, nesta e em outras províncias. (…) Mais de uma vez, gastou seis ou sete meses, mesmo na época das chuvas, visitando sua Diocese, pregando, confessando e administrando a crisma. Podemos, sem medo de errar, juntar a nossa à prece geral: ‘Deus conserve seus dias!’ ”

Quando o Concílio Vaticano I foi convocado, em 1868, Dom Viçoso, que nunca havia estado em Roma, nem mesmo para as visitas ad limina, feitas três vezes por procuração, sentindo-se obrigado a responder positivamente ao chamado do Papa Pio IX, foi ao Rio de Janeiro, sendo acolhido pelo amigo Dom Pedro Maria de Lacerda. Em 1869, data desta sua viagem, Dom Viçoso contava 82 anos. Sua viagem foi para exames médicos, para consultar e certificar seu estado de saúde e a possibilidade ou não de empreender a viagem para o Concílio em Roma. O resultado de seus exames era tão evidente, devido a sua longa idade e as achaques próprios da velhice e da saúde frágil, que lá mesmo, no Rio de Janeiro, suas condições pioraram em tal medida que o próprio Bispo do Rio de Janeiro chegou a pensar que Dom Viçoso não mais voltaria para Mariana. A longa viagem até Roma, para o Concílio, era impossível, como impossível começava a ser continuar conduzindo tão imenso rebanho como o marianense. Por isso, foi até o Imperador Dom Pedro II a fim de conseguir sua renúncia ou pelo menos um Bispo coadjutor. Mas seus esforços foram em vão.

De volta a Mariana, depois desta viagem ao Rio de Janeiro, Dom Viçoso foi aceleradamente piorando seu estado de saúde. Em maio de 1874, descansando em sua Cartuxa, passou tão mal que teve que ser trazido às pressas para o Palácio Episcopal, dando início assim a sua final convalescença. Seus auxiliares mais próximos obrigaram-no a parar todas as suas atividades. Retiraram-lhe o Breviário e todos os livros. Ademais, passaram a condução da Diocese para as mãos do Vigário Geral.
Apesar de precisar no mais das vezes de uma cadeira para se mover e ser transportado de um lugar para outro, devido às fraquezas constantes, Dom Viçoso ainda conferiu Ordens nos dias 28 de outubro de 1874 e 14 de fevereiro de 1875, sem contar a bênção dos Santos Óleos na Quinta-feira Santa de 1875. Incansável em seu zelo e em seu ardor missionário, pediu para ir ao Caraça, a fim de ordenar alguns seminaristas que já estariam na idade exigida. Mesmo com a discordância de seus auxiliares, partiu no dia 21 de abril de 1875 para o Santuário do Caraça, sua grande paixão missionária e primeira casa de onde lançou suas sementes no Brasil. Ainda a caminho, ordenou dois diáconos no final de abril e, no Santuário, nos dias 01 a 03 de maio conferiu ordens aos seminaristas.
Por causa do frio, voltou a Mariana. Uma semana depois, dia 19 de maio, seu estado de saúde piorou consideravelmente. No dia 25 recebeu o Viático e a Extremunção. Tendo se recuperado minimamente, no dia 16 de junho, ainda celebrou a Eucaristia, presidindo-a totalmente pela última vez, na Festa do Sagrado Coração de Jesus. Com o agravamento final de sua saúde, e retirado em sua Cartuxa, entregou sua vida a Deus na noite do dia 07 de julho de 1875, entre 22h e 23h.

Em sua vida, tanto pessoal quanto ministerial, no serviço missionário e educativo e depois no árduo labor episcopal, Dom Antônio Ferreira Viçoso cumpriu o que os Bispos da América Latina afirmaram e projetaram para si mesmos em Aparecida: “Não podemos esquecer que o bispo é princípio e construtor da unidade de sua Igreja particular e santificador de seu povo, testemunha da esperança e pai dos fiéis, especialmente dos pobres, e que sua principal tarefa é ser mestre da fé, anunciador da Palavra de Deus e da administração dos Sacramentos, como servidor da grei” (Documento de Aparecida 189). Nesta afirmação, encontra-se um excelente panorama da vida e da obra de Dom Viçoso. A unidade de sua Igreja particular foi sedimentada pela pregação do Evangelho em suas visitas pastorais, pelo atendimento abnegado ao povo de Deus que o procurava constantemente e por suas inúmeras obras caritativas de cuidado e amparo aos pequenos e abandonados. Não uma unidade imposta, mas uma unidade construída a partir da comunhão, do encontro de seu espírito de paternidade episcopal com a docilidade filial do povo, sedento de Deus e de esperança. Como testemunha do Reino e fomentador da esperança cristã e da utopia do Evangelho no meio de seu rebanho, Dom Viçoso pôde criar um novo tempo para a Igreja Marianense e para a Igreja do Brasil, garantindo para a Igreja a liberdade e a autoridade evangélica, baseadas no testemunho de uma vida ética e transparente, servidora e doada aos irmãos no amor.

Sua morte, sentida por todos, só não pôs fim a este novo tempo porque as verdadeiras testemunhas do Reino deixam discípulos e sua própria obra, obra imersa no Mistério de Deus pela ação de seu Espírito, não passa nem se retrai com a limitação própria dos seres humanos. No entanto, grande foi a dor e a saudade! Morria ali um dos maiores Bispos que a Igreja conheceu, dos mais importantes e influentes da Igreja de então. Morria o pastor, para tristeza de suas ovelhas; morria o pai dos órfãos e abandonados, para desespero dos pequeninos e sofredores; morria um ilustre filho de São Vicente, para a saudade de seus Coirmãos e das Filhas da Caridade; morria o defensor da Igreja e o apoio seguro do Clero, deixando para a posteridade um testemunho eloqüente de que a vida presbiteral e episcopal pode se encher de luz e de eloqüência quando pautada no seguimento de Jesus e no amor-serviço ao povo de Deus, quando todo interesse pessoal é colocado de lado para que o Reino de Deus floresça e transpareça em todas as ações, palavras e atitudes. Morria, enfim, aquele cuja vida tornou-se um sol radiante e atraente, em cujos raios a Igreja toda, particularmente a Família Vicentina, que tem nele um de seus mais ilustres filhos, pode se apoiar e se afirmar, fundamentando, assim, sua fidelidade ao Bom Pastor e Missionário por excelência do Pai, Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem Dom Viçoso serviu, na alegria e na disposição constante, ao longo de toda sua vida.