

O sábio francês Auguste François César Prouvençal de Saint-Hilaire (Orléans, 4 de outubro de 1779 — 3 de setembro de 1853) foi botânico, naturalista e viajante, sendo um dos primeiros cientistas vindos da Europa a poder percorrer livremente territórios do Brasil Colônia. Isso foi possível graças à mudança da disposição da Corte portuguesa, instalada no Rio de Janeiro desde 1808, que resolveu abrir o Brasil às nações amigas. Durante seis anos, de 1816 a 1822, ele, infatigável, visitou as províncias do centro e do centro-sul do Brasil, recolhendo pelo caminho um proveitoso acervo botânico, registrando cada passo das suas andanças num saboroso diário de viagem, publicado mais tarde na França em diversos volumes que até hoje encantam os seus leitores como um retrato fiel e objetivo da paisagem e dos costumes do Brasil daqueles inícios do século XIX. O que Jean-Baptiste Debret, seu contemporâneo e conterrâneo, fez com o pincel, Auguste Saint-Hilaire fez com a pena.
“A Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens foi construída à entrada de uma planície. O visitante é surpreendido pela súbita e imprevista aparição de um edifício tão vasto, a uma tal altitude e tão longe de toda habitação. Quem chega se acha num terraço, diante do qual foi plantada uma fila de palmeiras. É neste terraço que se eleva a ermida, dividida em duas partes, face a face uma da outra. Uma escada entre os dois edifícios separados conduz a um patamar, no mesmo piso que o primeiro andar e a igreja. Esta, porém, se acha num plano menos avançado e forma o que se pode chamar o corpo da casa, cujas alas seriam as duas construções.
Toda a fachada do edifício, de uma a outra extremidade das alas, mede aproximadamente 23 passos e cada uma das alas tem no primeiro andar seis janelas, amplamente espaçadas entre si. A escada tem 18 degraus. Depois dos 4 primeiros, os 14 seguintes, mais estreitos, são margeados de cada lado por uma rampa de pedra, obra de bastante bom gosto. Em torno do patamar corre uma balaustrada, semelhante à rampa da escada.
Há, diante da porta da igreja, uma espécie de pórtico, formado por dois pilares que sustentam a tribuna, onde está o órgão. A igreja é pequena, mas muito ornada e possui bela e rica prataria, destacando-se os grandes candelabros de prata dourada, irregularmente torneados como os demais de todos os outros templos. Em torno da igreja foi construído um corredor em forma de ferradura, o qual não comunica com ela e onde se entra por duas portas exteriores. Neste corredor, há diversas capelas de distância em distância. Sobre o altar de cada uma, vê-se a imagem de madeira pintada, representando Cristo em alguma atitude de sua paixão. Estas estátuas, longe de serem obras-primas, têm, contudo, suficiente expressão para quem sabe que foram esculpidas por um homem que nunca teve sob os olhos modelo algum e vivia naquela solidão, na fronteira dos botucudos.
As duas capelas mais notáveis e mais ricamente ornadas se acham fora do corredor. Estão uma em frente da outra, construídas no fundo mesmo dos edifícios da ermida e no nível do pórtico que faz parte da igreja. Sobre o altar da capela da direita há diversas estátuas de madeira que reproduzem alguma circunstância da paixão. Na capela da esquerda se vê um corpo de cera, mui ricamente vestido que encerra relíquias vindas de Roma. O pavimento térreo da ermida serve para depósitos e também para morada dos negros. O primeiro andar é dividido em celas, destinadas aos eremitas e aos peregrinos que a devoção ou a curiosidade atrai para estas montanhas.
Tal é a Ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens”.