RPPN – Espeleologia

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Espeleologia

(Ezio Rubbioli & Lília Senna Horta)

A Serra do Caraça, composta essencialmente por quartzitos, localiza-se no Quadrilátero Ferrífero, porção sul, constituindo as mais elevadas altitudes dessa região. Dentre os picos mais elevados destaca-se o Pico do Sol com 2.072 m de altitude, seguido do Pico do Inficionado, com 2.068 m de altitude. Nesta litologia e altitude adversa desenvolvem-se grandes abismos e cavidades, caracterizando o Pico do Inficionado como uma das mais notáveis feições espeleológicas já observadas.

A descoberta de grutas no Pico do Inficionado serviu para ampliar e diversificar o mosaico de feições cársticas brasileiras.

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Foto: A. Auler
Foto. Entrada da Gruta do Centenário, Pico do Inficionado

O clima da região foi fator preponderante para o desenvolvimento das feições espeleológicas, sendo que, no Pico do Inficionado, tem-se um microclima próprio, bem mais úmido, frio e com amplitude térmica considerável, diferente do encontrado nos arredores.

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Figura. Mapa da Gruta do Centenário

A história do Caraça e adjacências confunde-se com a história dos primórdios da espeleologia brasileira e relatos sobre a existência de minerais no Quadrilátero Ferrífero.

São inúmeros os registros de exploração mineral nos séculos XVIII e XIX (Eschewege, 1832, 1833, in Eschewege, 1979). Desta mesma época (1818) são os relatos de dois naturalistas europeus, Spix e Martius, que citavam a existência de diversas fendas na Serra do Caraça:

Ressoa a montanha em diversos pontos com o estrondo de águas subterrâneas, que correm entre fendas e falhas de pedra, e finalmente aparecem embaixo, como frescas nascentes‖ (Spix e Martius, 1838).

Com a criação do Colégio do Caraça – que funcionou de 1820 a 1912, funcionando até 1968 apenas o Seminário – as visitas ao Pico do Inficionado tornaram-se mais constantes, com padres e alunos desbravando as entranhas do maciço. Dentre as várias grutas ―descobertas‖, destaca-se a do Centenário, cujo nome foi uma homenagem ao centenário da Independência do Brasil (1922). Em 1952, o Padre Estanislau Adamczyk realizou um levantamento topográfico rudimentar da cavidade, mas, devido às dificuldades da época, os abismos continuaram inexplorados.

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Figura. Mapa desenhado pelo Pe. Estanislau C.M.

Durante alguns anos, esta região ficou esquecida do ponto de vista espeleológico, servindo como atrativo turístico somente para poucos aventureiros que realizavam visitas esporádicas às cavernas. Nesse intervalo, acumulou-se lixo dentro das fendas, principalmente próximo aos abrigos que serviam de refúgios, resultado de um turismo predatório e irregular. Em 1996, o Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas começou um trabalho sistemático, com atividades de exploração, topografia e estudos das cavidades e fendas do Pico do Inficionado.

As principais grutas localizadas na região do Pico do Inficionado são: Gruta do Centenário, Gruta da Bocaina, Gruta Alaouf e Gruta do Bloco Suspenso, descritas a seguir.

A. Gruta do Centenário

UTM: 661.968 / 7.772.897

4.710 metros de desenvolvimento linear

3.800 metros de projeção horizontal

484 metros de desnível 39

A Gruta do Centenário possui 3.800 m de desenvolvimento e um desnível total de –484 m, sendo que a entrada superior encontra-se a 2.050 m de altitude. As outras entradas principais estão situadas nas cotas 1.958, 1.881 (Abismo do Inficionado) e 1.944 (Abismo da Velózia). As entradas quase sempre são em forma de abismos, exceção feita à entrada clássica, onde não é necessário corda embora também possua alguns desníveis.

Os condutos são estreitos, com larguras variando de 0,30 m ou menos a 10,0 m nos salões, predominando geralmente em torno de 1,0 m. A altura das galerias chega a dezenas de metros, sendo poucos os locais onde é possível observar o teto. As seções são retangulares verticais. O piso invariavelmente é de rocha podendo ser encontrados sedimentos (areia) somente nas partes planas ou onde o córrego não flui mais (início do Conduto do Areião). Percebe-se um condicionamento estrutural formando uma rede labiríntica quadrática na qual os condutos principais possuem direção grosseiramente leste-oeste (190º-280º) e os condutos secundários possuem direção norte-nordeste. Os salões encontrados nesta cavidade são resultado da interseção de dois ou mais condutos. A gruta é essencialmente vertical formando abismos que variam de tamanho tornando-se plana nas cotas em torno de –370 m a –400 m.

A drenagem pode ser observada em vários condutos da caverna, formando córregos paralelos que às vezes se ligam uns aos outros através de cachoeiras. Foram identificados por enquanto três drenagens subterrâneas: o Córrego do Inficionado, o Córrego do Chantilly e o Córrego do Areião, o que não impossibilita a ligação entre os mesmos após os pontos conhecidos. Esses córregos formam uma sub-bacia de drenagem subterrânea e podem ou não convergir para uma ou mais ressurgências. Do lado oposto do maciço tivemos notícias de existirem ressurgências na cota 900 metros, o que permite estimar um potencial superior a 1000 metros (a entrada superior está a 2.050 metros de altitude).

Basicamente podemos compartimentar a gruta em cinco seções:

  • Rede superior: marcada por fendas altas e com muitas aberturas para o exterior. Consiste na parte conhecida desde o início do século e muito visitada por turistas. As galerias (embora mantenham o mesmo perfil vertical do resto da gruta) formam um complexo labirinto tridimensional com pequenas variações das direções preferenciais ao longo dos níveis da caverna. Na cota –100 ressurge o primeiro córrego que segue por galerias estreitas e com pouco desnível. Mantendo o mesmo padrão e somente separada por fendas rasas, podemos encontrar nessa mesma seção as grutas do Centenário II e III (veja descrição a seguir).
  • Rede intermediária: o acesso é feito a partir da entrada situada na cota –92 (1.958 m), na borda oeste da Garganta do Diabo. Possui galerias perfeitamente retas, intercalando trechos planos e verticais. Intercepta a drenagem que vem do nível superior na cota –155. A partir deste ponto a galeria segue um trajeto com vários abismos menores (de 6 a 31 metros) até chegar a grande fenda do Abismo do Inficionado.
  • Rede do Inficionado: galeria praticamente única, com perfil que intercala longas rampas (Tuboágua) com abismos de até 25 metros. A entrada é feita através de uma sequência de lances verticais que culminam no Abismo do Inficionado, com 92 metros de profundidade. Possui dois trechos planos situados a –370 e –406 metros, respectivamente. O seu final é marcado por uma fenda alta que estreita bruscamente. A drenagem continua, embora não tenham sido percebidas correntes de ar que sugerissem a existência de outras entradas.
  • Rede da Velózia: o acesso é feito através do abismo de 120 metros de profundidade e que leva o mesmo nome. No fundo aparece a segunda drenagem do sistema. Na sua parte superior (na cota – 250 metros) as galerias possuem um padrão labiríntico (bidimensional) com direções leste-oeste preferenciais e norte-sul secundárias. Depois a drenagem mergulha numa longa rampa (Tuboágua do Chantilly) que chega a 60 graus de inclinação e é intercalada por pequenos abismos até a profundidade de –400 metros. Neste nível o conduto torna-se muito estreito para permitir a passagem.
  • Conduto do Areião: como o próprio nome indica, trata-se de uma pilha de sedimentos autóctones na fração areia, compostos por grãos de quartzo e quartzito. Seu início se dá na rede da Velózia na cota –250 m. Possui um perfil similar ao dos Tuboáguas, embora seja mais larga na maior parte. Intercepta uma pequena drenagem a –280 metros e segue em trechos inclinados e pequenos abismos. A galeria muda bruscamente de forma a partir dos –420 metros, passando a ser preenchida por blocos até ficar totalmente obstruída a -484 metros.

B. Gruta do Centenário II

UTM: 661.968 / 7.772.897

18 metros de projeção horizontal

Pequeno trecho de galeria que acessa a rede superior da Gruta do Centenário. Consiste no acesso preferencial dos turistas e possui somente 20 metros de projeção horizontal.

C. Gruta do Centenário III

UTM: 661.968 / 7.772.897

100 metros de projeção horizontal

A partir da entrada superior da Gruta do Centenário, a fenda em que se desenvolve a galeria torna-se muito rasa (menos de 10 metros), justificando a divisão desta com a cavidade que se encontra 100 metros adiante. Formada por duas galerias paralelas e de seção retangular, ligadas por um pequeno trecho em teto baixo. Possui duas entradas sendo uma delas na encosta da Garganta do Diabo.

D. Gruta do bloco suspenso

20o08`07“ / 43o26`57“

202 metros de projeção horizontal

172 metros de desnível

Sua entrada está localizada na face sul da Garganta do Diabo sendo marcada por uma fenda leste-oeste onde um imenso bloco se alojou, formando o que poderíamos considerar o ―teto‖ da caverna. A galeria possui pequenos abismos de até 20 metros e longas rampas cobertas por uma espessa camada de guano de andorinhão. Na cota –80 metros, o conduto intercepta uma pequena drenagem, mas ainda é possível evitar a água até –110 metros. A partir desse ponto a fenda torna-se estreita e surge uma pequena drenagem que mergulha verticalmente numa sequência de cachoeiras. As explorações e topografia foram interrompidas neste ponto, na profundidade de –172 metros.

E. Gruta da bocaina

UTM: 661.972 / 7.773.010

3.220 metros de projeção horizontal

3.600 metros de desenvolvimento linear

404 metros de desnível

Segunda mais importante cavidade do maciço do Inficionado, localizada no flanco norte do maciço. Possui entradas verticais caracterizadas por abismos que atingem 100 metros de profundidade e galerias paralelas e retilíneas que se desenvolvem no sentido leste-oeste. As duas galerias principais – Rio de Guano e Passagem da Pedra – são percorridas por drenagem independentes que surgem na cota aproximada de 1.900 metros e até as partes mais profundas da caverna, terminando em um sifão e um abatimento, respectivamente. Possui uma entrada inferior localizada próxima do abatimento que marca o final da Galeria Passagem da Pedra. 41

F. Gruta Alaouf

UTM: 662.300 / 7.772.637

1.200 metros de projeção horizontal

1.710 metros de desenvolvimento linear

294 metros de desnível

O sistema Alaouf inicia-se praticamente no ponto mais alto do Pico do Inficionado. A parte superior desse sistema é uma grande fenda de cerca de 40 metros de profundidade, 5 a 10m de largura e 15m de extensão, que pode ser descida com facilidade de um lado e com mais dificuldade do outro. A partir desta, três abismos permitem atingir outra fratura paralela, percorrida por um pequeno rio. O acesso mais fácil é um poço de 2m que se abre no nível do piso na parede esquerda, no ponto baixo da fenda principal. O rio encontra-se na base do abismo e possui uma vazão de alguns litros por minuto. Descendo para jusante, é possível seguir o rio cerca de 300m até uma passagem impenetrável. Pouco antes do término é possível ver a luz do dia, que penetra na caverna através do fundo da fenda principal. A parte inferior do sistema é feita por um abismo de 93 metros que acessa o rio após alguns desníveis. A galeria segue formando duas cachoeiras, de 10 e 25 metros, seguindo um abismo estreito de 20 metros e uma fenda inclinada descendente. Chega-se então a um desmoronamento onde a exploração foi interrompida.

Atualmente a Gruta do Centenário é conhecida como a segunda mais profunda caverna do mundo, com 484 metros de desnível. A mais profunda caverna do hemisfério Sul e a mais profunda do mundo em quartzito, está localizada no Estado do Amazonas, na caverna conhecida como Abismo Guy Collet (AM-003), em Barcelos, com 670 metros de desnível.

O Brasil possui atualmente 5.577 cavernas cadastradas na Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE. Atualmente o Estado de Minas Gerais possui 1.850 cavernas cadastradas na SBE.

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