RPPN – Vegetação

VOLTAR

Vegetação

(Alexandre Salino & Rubens Custódio da Mota)

Estudo da vegetação e da flora de plantas vasculares na RPPN Santuário do Caraça

Desde o início do século XIX, a vegetação da Serra do Caraça tem atraído a atenção de muitos viajantes e pesquisadores começando com Saint-Hilaire em 1817 e Von Martius em 1818. Mais tarde, na década de 1920, o geólogo e naturalista Álvaro Astolpho da Silveira realizou expedições na Serra, onde encontrou várias espécies novas de Eriocaulaceae e algumas espécies características da Serra e de seu entorno (Silveira, 1924). Mais tarde, a Serra foi alvo de muitos outros botânicos, com destaque para os trabalhos sobre Orquídeas de Pabst (1958), Pabst & Strang (1977), Mota (2006) e Mota et al. (2009), e a família Myrtaceae (Morais & Lombardi 2006); também houve trabalhos de levantamento florístico/vegetacional como os de Ferreira et al. (1977/1978), Magalhães et al. (1986), Mota (2002) e Oliveira (2010), além de um levantamento específico das pteridófitas (Viveros 2010).

Caracterização das fitofisonomias da RPPN Santuário do Caraça

A Serra do Caraça situa-se em uma região de transição entre os domínios do Cerrado e da Mata Atlântica. Na RPPN Santuário do Caraça existem duas formações vegetais básicas, que são as campestres e as florestais. As campestres, dentro do domínio do Cerrado, e as florestais, dentro do domínio da Mata Atlântica. A seguir, são comentadas as fitofisionomias de cada formação da região. A nomenclatura das formações e fitofisionomias está segundo Ribeiro & Walter (1998), para formações campestres e Veloso et al. (1991 – do IBGE), para formações florestais. Decidiu-se separar e caracterizar estas formações utilizando-se autores diferentes, pois cada um trata de forma mais adequada o tipo de formação. A caracterização foi feita com base na cobertura e análise da composição florística.

1- Formações florestais

Matas de galeria (IBGE como Floresta Ombrófila Densa Montana)

As matas de galeria encontram-se associadas a pequenos rios e córregos anuais ou perenes nos vales e encostas da Serra do Caraça. Algumas, como as encontradas na região denominada Campo de Fora, podem ser parcialmente inundadas. Suas margens podem ter ou não bancos de areia e ou pedras e, dependendo disto, a distribuição e composição de sua flora varia. Uma das características evidentes das matas de galeria é a presença dos dosséis contínuos da floresta de ambas as margens. Algumas espécies encontradas neste ambiente são: Staurogyne minarumAnthurium mourae,Geonoma schottianaHirtella hebecladaHedyosmum brasilienseClusia arrudeaAgarista oleifoliaLeucochloron incurialeTalauma ovataCalyptranthes grammicaMicropholis gardneriana, Drimys brasiliensis, entre outras.

Matas ciliares (IBGE como Floresta Ombrófila Densa Montana)

As matas ciliares encontram-se associadas ao curso d‘água principal do Caraça (Ribeirão Caraça) e alguns de seus principais afluentes. Basicamente o que define uma mata ciliar é a descontinuidade dos dosséis da floresta de ambas as margens do rio. Suas margens podem ser rochosas ou arenosas, com a primeira predominando. Algumas espécies encontradas neste ambiente são: Matelea pedalis, Garcinia gardneriana, Calophyllum brasiliense, Agarista oleifolia, Psychotria vellosiana, entre outras.

Matas nebulares (IBGE como Floresta Ombrófila Densa Alto Montana)

As matas nebulares encontram-se nos locais mais altos da Serra do Caraça, geralmente acima de 1.900 m, como nos pequenos vales dos picos, em meio ao campo rupestre, onde se acumula bastante matéria orgânica. Estas matas são sustentadas pela água das neblinas, que são comuns nestas partes mais altas. Esta fitofisionomia está presente principalmente no Pico do Inficionado e no do Sol. As árvores são geralmente de pequeno porte, com seus troncos e galhos cobertos de epífitos como Peperomia spp, Sophronitis coccinea e muitas espécies de samambaias. Oliveira (2010) registrou 83 espécies de angiospermas, sendo 27 restritas às Matas Nebulares. As famílias mais representativas são: Asteraceae, Orchidaceae, Bromeliaceae, Melastomataceae, Myrtaceae e Rubiaceae. Destacam-se nas Matas Nebulares as espécies de arvoretas e arbustos, como Ilex congonhinha, Myrcia hartwegiana, Myrceugenia myrcioides, Miconia sp., Mollinedia sp. Drimys brasiliensis, e as epífitas, lianas e ervas de sub-bosque como Valeriana scandens, Fuchsia coccinea, Nematanthus strigilosus, Peperomia blanda, P. elongata, Mikania sp. e Anthurium sp., além de Aulonemia radiata (Oliveira 2010).

Matas de encosta (IBGE como Floresta Estacional Semidecidual Montana)

Possivelmente é a fitofisionimia que mais foi perturbada na Serra do Caraça, sendo formada basicamente de mata secundária semidecídua. Neste grupo podem ser reconhecidos os candeiais, onde predomina Eremanthus erythropappus. Algumas espécies e gêneros mais representativos desta fitofisionomia são: Guatteria villosissimaXylopia sericeaAcrocomia aculeataFriedericia speciosaCecropia spp., Andira sp., Bowdichia virgilioides,Dalbergia nigraMachaerium brasilienseStryphnodendron polyphyllumCasearia spp., Campomanesia guazumaefoliaZanthoxylum rhoifoliumMatayba spp.,Serjania spp, entre outras.

2 – Formações campestres

Campo Sujo

É uma fitofisionomia exclusivamente herbáceo-arbustivo, com arbustos e subarbustos esparsos, algumas vezes constituídos por indivíduos menos desenvolvidos do Cerrado sensu stricto (Ribeiro & Walter, 1998). Na Serra do Caraça, ela sofreu fortes impactos antrópicos, como gado e fogo. Infelizmente em alguns trechos do Campo de Fora, ainda se observa a presença de gado de fazendeiros vizinhos. Esta área é a mais representativa desta fitofisionomia, sendo basicamente dominada por espécies de Poaceae e Cyperaceae no estrato herbáceo e por espécies do estrato arbustivo, tais como: Baccharis spp., Kielmeyera spp., Diplusodon buxifoliusLafoensia pacariByrsonima spp., Tetrapterys microphyllaMicrolicia spp., Miconia spp.,Campomanesia adamantiumEugenia bella Lippia spp.

Campo Limpo

É uma fitofisionomia predominantemente herbácea, com raros arbustos e ausência completa de árvores. Tanto este quanto o campo sujo podem ser encontrados em diversas posições topográficas, com diferentes variações no grau de umidade, profundidade e fertilidade do solo (Ribeiro & Walter, 1998). Nestas duas fitofisionomias, na Serra do Caraça, são encontrados a maioria dos brejos anuais e/ou perenes e alguns córregos. Da mesma forma que no campo sujo, as famílias Poaceae e Cyperaceae são dominantes, tanto nas áreas secas, quanto nas áreas úmidas. Outros representantes são: Burmania bicolorSiphocampylus sulfureusDrosera montanaEriocaulon ligulatumPaepalanthus hilarieiPaepalanthus polyanthusChamaecrista spp.,Sisyrinchium vaginatumCleistes spp., Habenaria spp., Pelexia spp., Sarcoglottis spp., Sauvagesia capillaris Xyris spp. Oliveira (2010) reconheceu como campos úmidos quando há presença de água na maior parte do ano. Tais áreas são encontradas entre 1.800 a 1.900 metros de altitude sendo maiores nas áreas mais baixas do Pico do Sol e do Pico do Inficionado (Oliveira 2010). Das 102 espécies registradas por Oliveira (2010) nos campos úmidos, 42 são restritas a eles. As famílias predominantes nos campos úmidos são Poaceae, Orchidaceae, Eriocaulaceae, Xyridaceae, Asteraceae e Cyperaceae. Segundo Oliveira (2010), nas principais áreas de campos úmidos, Machaerina ensifolia Cortaderia cf. modesta formam grandes touceiras que se destacam na paisagem, junto com Chusquea pinifolia.

Campo Rupestre

Das formações campestres, é a fitofisionomia dominante na Serra do Caraça, sendo predominantemente herbáceo-arbustivo, mas com a presença eventual de árvores pouco desenvolvidas (Ribeiro & Walter, 1998). Representantes do campo sujo e limpo também podem estar presentes. A vegetação dos campos rupestres da Serra do Caraça é pouca homogênea. Observamos que sua estrutura e composição modificam-se gradativamente à medida que aumentam a altitude, o teor de matéria orgânica e/ou a umidade. Neste ambiente, a maioria das plantas cresce nas frestas de rochas, onde a matéria orgânica e a umidade podem acumular-se mais facilmente, e poucas crescem diretamente nas rochas nuas. Oliveira (2010) registrou, para a zona dos 1.800 aos 2.072 m de altitude, 143 espécies, sendo 45 restritas a esta fisionomia. As famílias predominantes são: Orchidaceae, Asteraceae, Poaceae e Eriocaulaceae. A maioria das espécies de Asteraceae e Bromeliaceae ocorrentes na Serra do Caraça está presente nesta fitofisionomia. Algumas espécies e gêneros encontrados neste ambiente são: Alstroemeria spp., Hippeastrum spp., Klotzschia brasiliensis,Anthurium minarumGriselina ruscifoliaGaylussacia spp., Paepalanthus spp., Leiotrixis spp., Syngonanthus spp., Nematanthus strigillosusSinningia spp.,Hyptis spp., Utricularia spp., Lavoisiera spp., Microlicia spp., Bulbophyllum spp., Sophronitis spp., Barbacenia spp., Vellozia spp. e Xyris spp.

Vellozia compacta (canela-de-ema) é a espécie que mais se destaca nestas formações pelo seu grande número de indivíduos, por encontramos várias espécies epífitas de Orchidaceae em seus caules e por ser possivelmente uma espécie facilitadora para a formação de manchas de vegetação, pois em muitos casos é a única fonte de matéria orgânica sobre a rocha exposta. Espécies raras como Huperzia rubra (Lycopodiaceae) e Lepanthopsis vellozicola, esta última endêmica da Serra do Caraça, parecem depender da Vellozia compacta para sobreviverem neste ambiente (Oliveira 2010).

Segundo Vasconcelos (2011), alguns trechos considerados como campos rupestres nos picos da Serra do Caraça poderiam ser considerados como campos de altitude em função da composição de espécies.

A Flora da RPPN Santuário do Caraça

As angiospermas na RPPN Santuário do Caraça

Estima-se a ocorrência de mais de 1.000 espécies de angiospermas na RPPN Santuário do Caraça, representando mais de 420 gêneros e mais de 120 famílias. Para obter uma lista atualizada de espécies ocorrentes na área seria necessária uma compilação minuciosa nos trabalhos de Mota (2002), Mota (2006), Morais & Lombardi (2006) e Oliveira (2010), bem como o levantamento das coletas recentes depositadas nos herbários que possuem tradição de coletas na região.

As famílias mais representativas na Serra do Caraça são: Asteraceae, Orchidaceae, Melastomataceae, Fabaceae, Rubiaceae, Myrtaceae, Bromeliaceae, Solanaceae, Poaceae, Eriocaulaceae, Asclepiadaceae e Malpighiaceae, que são as famílias mais representativas nos levantamentos florísticos feitos na Cadeia do Espinhaço. Os 12 gêneros melhor representados para a Serra do Caraça são: SolanumBaccharisMikaniaGaylussaciaMyrciaPsychotria,EpidendrumLeandraChamaecristaMiconiaMicrolicia Paepalanthus.

Nos topos da Serra do Caraça, acima de 1.800 m de altitude, onde dominam os campos rupestres, Oliveira (2010) registrou 356 espécies de angiospermas, distribuídas em 63 famílias e 188 gêneros.

Na área de estudo foram encontradas diversas disjunções de espécies de gêneros considerados antigos, ocorrendo mais comumente no Sul do Brasil, nos Andes e Guianas, mas que atingem maior diversidade em termos de número de espécies nos Andes (Giulietti & Pirani, 1988; Harley, 1995). Segundo Harley (1995), esses gêneros poderiam ter feito parte de floras autóctones mais antigas, que eram, até o oligoceno, amplamente distribuídas na América do Sul, mas que hoje estão restritas às montanhas mais antigas do Brasil e das Guianas e à porção mais ao sul do Brasil extratropical. Entre os exemplos estão, Hedyosmum brasilienseClethra scabraWeinmannia sp., Podocarpus sellowii Drimys brasiliensis.

Harley (1995) comenta que o ambiente físico dos campos rupestres é comparável ao da restinga em vários aspectos, principalmente os solos arenosos com baixo teor de nutrientes e alta umidade, além de hábitats abertos com altos níveis de insolação e flutuação de temperaturas consideráveis. E este talvez seja o principal motivo de haver espécies dos campos rupestres que ocorrem também nas restingas. Segundo o mesmo autor, a Cadeia do Espinhaço pode ter uma ligação com a restinga através de uma série de afloramentos graníticos/gnáissicos que estão entre a Serra de Jacobina e a Serra de Itabaiana. Esta última localiza-se no Estado de Sergipe e pode ser tida como o primeiro degrau de uma escada entre as restingas e os campos rupestres ao norte da Cadeia do Espinhaço. Alguns exemplos de espécies encontradas na Serra do Caraça que ocorrem também na restinga são: Lagenocarpus rigidusLeiothrix flavescensPhyllanthus klotzschianusMarcetia taxifolia Sophronitella violacea.

Algumas espécies arbóreas da Serra do Caraça possuem uma ampla distribuição geográfica no domínio da floresta atlântica, tais como Cecropia pachystachia, Casearia decandra, Cabralea canjerana, Myrsine umbellata Zanthoxylum rhoifolium Aegiphila sellowiana (Oliveira Filho & Fontes, 2000). A explicação da ampla distribuição de algumas espécies arbóreas neotropicais talvez sejam as matas de galeria, que poderiam servir como corredores de migração (Giulietti et al., 1987).

Muitos gêneros são comuns na Serra do Caraça e ao longo de toda Cadeia do Espinhaço, como por exemplo: LychnophoraVernoniaDrosera,KielmeyeraLagenocarpusGaylussaciaPaepalanthusSyngonanthusCalliandraChamaecristaMimosaPeriandraIrlbachiaEriopeHyptisDiplusodon,BanisteriopsisByrsonimaPeixotoaMicroliciaMarcetiaSauvagesiaSophronitisBarbaceniaVellozia Xyris. O fator edáfico talvez seja o principal motivo da distribuição destes e de outros gêneros ao longo da Cadeia do Espinhaço, pois os tipos de solos são quase os mesmos (Giulietti et al., 1987).

Algumas espécies que ocorrem na Cadeia do Espinhaço extendem sua distribuição para algumas serras isoladas de Minas Gerais. Como exemplo dessas espécies, podemos citar Aechmea nudicaulis, Chamaecrista cathartica, Trimezia juncifolia, Leandra aurea, Miconia theaezans e Xyris asperula, que ocorrem na Serra do Caraça e também foram listadas para a Serra do Lenheiro e São José, próximas à São João del Rei (Alves & Kolbek, 1994).

A maioria das espécies epifíticas, que habitam as matas de galeria e nebulares da Serra do Caraça, ocorrem também na Reserva Ecológica de Macaé de Cima, localizada na Serra do Mar no Rio de Janeiro. A flora epifítica das florestas úmidas das regiões de maior altitude da Cadeia do Espinhaço mostra uma forte ligação com a floresta atlântica costeira (Giulietti & Pirani, 1997). Algumas espécies citadas por Lima & Guedes-Bruni (1997) para a Reserva Ecológica de Macaé de Cima ocorrem também na Serra do Caraça, tais como Bilbergia amoenaPitcairnia flammeaTillandsia aeris-incola,Tillandsia geminifloraPeperomia tetraphylla e grande parte das Orchidaceae epífitas. Duas espécies de Orchidaceae, como Sophronitis coccinea eBrachionidium restrepioides, cuja distribuição é descrita para a Serra do Mar, só foram encontradas na Cadeia do Espinhaço na Serra do Caraça.

As pteridófitas na RPPN Santuário do Caraça

Na Serra do Caraça foram registradas 236 espécies de pteridófitas, distribuídas em 27 famílias e 74 gêneros (Viveros 2010). O número de espécies é maior que o registrado para qualquer área de Floresta Atlântica da Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira, que são as regiões consideradas de maior riqueza de pteridófitas no Brasil (Tryon & Tryon 1982), com exceção da Serra do Caparaó que abriga cerca de 292 espécies (Souza 2012). A Serra do Caraça abriga mais de 60% das espécies que ocorrem no Quadrilátero Ferrífero, sendo assim, de extrema importância para a conservação de pteridófitas. As famílias de pteridófitas mais representativas são: Polypodiaceae, Dryopteridaceae, Pteridaceae, Hymenophyllaceae, Thelypteridaceae, Lycopodiaceae, Blechnaceae, Cyatheaceae e Aspleniaceae. A maior parte das espécies ocorre nas formações florestais, sendo que apenas 13% das espécies ocorrem em formações campestres.

A flora pteridofítica da Serra do Caraça possui muitos táxons típicos das florestas montanas da região sudeste do Brasil e dos campos rupestres de Minas Gerais. Das 236 espécies ocorrentes na Serra do Caraça, 16 (6,78%) são consideradas ameaçadas em Minas Gerais (tabela 2). Todas elas estão dentro dos limites da RPPN Santuário do Caraça, o que torna esta unidade de conservação a segunda mais importante para a proteção de pteridófitas ameaçadas em Minas Gerais, sendo superada apenas pelo Parque Nacional do Caparaó (Salino et al. dados inéditos).

Destacam-se os seguintes registros: Huperzia rubra (Lycopodiaceae), que possui registros antigos também em outras serras do Quadrilátero Ferrífero, além da Serra do Caraça, a saber: Serra da Piedade, Serra do Itacolomi, Serra do Capanema, Serra do Curral e Serra do Batatal (Vasconcelos et al.2002). Contudo, os registros mais recentes são apenas da RPPN Santuário do Caraça (Vasconcelos et al. 2002; Salino & Almeida 2008), tendo sido também observado um único indivíduo por Vasconcelos et al. (2002) na Serra do Batatal. Na RPPN, os mesmos autores relatam a ocorrência de poucos indivíduos no Pico do Sol e Pico do Inficionado, remanescentes de um incêndio ocorrido no ano de 1997, que teria causado o desaparecimento da espécie no Pico da Carapuça. Todavia, durante o trabalho de campo dos últimos dois anos foram observados vários indivíduos acima de 1.700 m de altitude nos Picos do Sol, Inficionado e Conceição, sempre associados a espécies de VelloziaEriosorus flexuosus var. flexuosus(Pteridaceae), endêmica da Cadeia do Espinhaço e Quadrilátero Ferrífero, segundo Salino & Almeida (2008), foi citada erroneamente por Tryon (1970) para o estado do Espírito Santo, com base em uma coleta (Glaziou 15739) da localidade ―Cerro Batatal‖ (Serra do Batatal), que na verdade situa-se ao lado da Serra do Caraça; Micropolypodium perpusillum (Polypodiaceae) era considerada endêmica da Serra do Caraça, mas Salino & Almeida (2008) citam a ocorrência no parque Estadual da Serra do Intendente (MG); Culcita coniifolia (Culcitaceae) era citada apenas para os estados de Rio de Janeiro e São Paulo (Salino & Almeida 2008) e seus únicos registros para Minas Gerais são provenientes do Pico do Inficionado e da Serra do Funil, no município de Rio Preto, na divisa com o Rio de Janeiro; Dicranopteris rufinervis é uma espécie pouco conhecida e com registros confiáveis até o momento apenas para Minas Gerais. Lycopodiella benjaminiana, antes conhecida apenas do estado do Mato Grosso ocorre também na região do Parque Estadual do Rio Preto, no Planalto de Diamantina (Salino & Almeida 2008); para Cochlidium pumilum (Polypodiaceae), espécie que parece ser bastante rara e com distribuição disjunta no Brasil (Amazonas, Bahia e Minas Gerais) havia apenas registros muito antigos para o estado de Minas Gerais na região de Ouro Preto, até o ano de 1893 (Labiak & Prado 2003).

A ocorrência de Eriosorus flexuosus e de Culcita coniifolia nas áreas mais altas da Serra do Caraça (cerca de 2.000 metros) pode ser um indicativo de que a área funcione como um ponto de migração para espécies da Serra da Mantiqueira e da Cadeia dos Andes.

Espécies da flora ameaçada de extinção

Foram encontradas na Serra do Caraça 80 espécies ameaçadas de extinção em Minas Gerais segundo a Lista da Flora Ameaçada da Biodiversitas de 2007. Das 80 espécies, 64 são angiospermas (tabela 1) e 16 são pteridófitas (tabela 1). Trinta espécies são consideradas Vulneráveis, vinte e seis Em Perigo e vinte e quatro Criticamente em Perigo. As Orchidaceae Bulbophyllum carassense (Em Perigo) e Lepanthopsis vellozicola (Criticamente Ameaçada) não estão listadas na Lista da Flora Ameaçada da Biodiversitas de 2007, pois foram descritas posteriormente, mas na obra em que foram publicadas, as mesmas constam como ameaçadas segundo a lista vermelha da IUCN Red List (Mota et al., 2009). Do total de espécies ameaçadas, 16 angiospermas e pteridófitas ocorrem exclusivamente acima de 1.700 m, ou seja, nos picos. As famílias que possuem um maior número de espécies ameaçadas na Serra do Caraça são: Orchidaceae, Asteraceae, Bromeliaceae, Fabaceae, Lycopodiaceae e Pteridaceae. Grande parte destas espécies está ameaçada devido à destruição do habitat, somada a uma área de distribuição restrita. Para os representantes das famílias Orchidaceae e Eriocaulaceae ocorrem também coletas predatórias. A importância da Serra do Caraça para a conservação da biodiversidade em Minas Gerais não se restringe à riqueza e exuberância de sua flora, mas também ao fato de possuir um numero alto de espécies ameaçadas de extinção.

Tabela 1. Lista das espécies de angiospermas ameaçadas de extinção em Minas Gerais (segundo Lista da Flora de MG da Biodiversitas de 2007), com sua respectiva categoria.

Famílias

Espécies

Categoria de Ameaça

Apocynaceae

Ditassa longisepala

Vulnerável

Apocynaceae

Oxypetalum minarum

Vulnerável

Alstroemeriaceae

Alstroemeria plantaginea

Em Perigo

Amaryllidaceae

Habranthus irwinianus

Vulnerável

Amaryllidaceae

Hippeastrum morelianum

Em Perigo

Arecaceae

Euterpe edulis

Vulnerável

Asteraceae

Baccharis lychnophora

Em Perigo

Asteraceae

Baccharis minutiflora

Em Perigo

Asteraceae

Baccharis vernonioides

Em Perigo

Asteraceae

Chaptalia martii

Em Perigo

Asteraceae

Chionolaena arbuscula

Criticamente em Perigo

Asteraceae

Lychnophora pinaster

Vulnerável

Asteraceae

Mikania glauca

Vulnerável

Asteraceae

Mikania neurocaula

Em perigo

Asteraceae

Piptolepsis ericoides

Vulnerável

Asteraceae

Pseudobrichellia angustissima

Criticamente em Perigo

Asteraceae

Richtaerago polymorpha

Em Perigo

Asteraceae

Senecio claussenii

Em Perigo

Bromeliaceae

Andrea selloana

Criticamente em Perigo

Bromeliaceae

Cryptanthus caracensis

Vulnerável

Bromeliaceae

Cryptanthus glaziovii

Vulnerável

Bromeliaceae

Cryptanthus schwackeanus

Vulnerável

Bromeliaceae

Vriesea atropurpurea

Vulnerável

Bromeliaceae

Vriesea clausseniana

Em Perigo

Bromeliaceae

Vriesea oligantha

Vulnerável

Iridaceae

Neomarica glauca

Em Perigo

Iridaceae

Neomarica rupestris

Vulnerável

Cactaceae

Cipocereus laniflorus

Criticamente em Perigo

Eriocaulaceae

Syngonanthus elegans

Em perigo

Eriocaulaceae

Syngonanthus vernonioides

Em Perigo

Fabaceae

Abarema obovata

Vulnerável

Fabaceae

Chamaecrista choriophylla

Vulnerável

Fabaceae

Dalbergia nigra

Vulnerável

Fabaceae

Mimosa leprosa

Em perigo

Gesneriaceae

Paliavana sericiflora

Vulnerável

Myrtaceae

Accara elegans

Vulnerável

Ochnaceae

Luxemburgia corymbosa

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Acianthera duartei

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Anathallis heterophylla

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Brachionidium restrepioides

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Cattleya bicolor

Vulnerável

Orchidaceae

Cranichis diphylla

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Epidendrum ochrochlorum

Em Perigo

Orchidaceae

Pelexia parva

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Phloeophila echinantha

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Oncidium fuscans

Em Perigo

Orchidaceae

Oncidium warmingii

Vulnerável

Orchidaceae

Pseudolaelia corcovadensis

Em Perigo

Orchidaceae

Sarcoglottis schwackei

Vulnerável

Orchidaceae

Scuticaria irwiniana

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Sophronitis caulescens

Em Perigo

Orchidaceae

Sophronitis cinnabarina

Vulnerável

Orchidaceae

Sophronitis coccinea

Em Perigo

Orchidaceae

Sophronitis crispata

Em Perigo

Orchidaceae

Sophronitis fournieri

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Sophronitis jongheana

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Sophronitis longipes

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Zygopetalum pedicellatum

Criticamente em Perigo

Orchidaceae

Zygopetalum triste

Em Perigo

Orobanchaceae

Esterhazya caesarea

Em Perigo

Orobanchaceae

Physocalyx major

Vulnerável

Poaceae

Aulonemia effusa

Vulnerável

Symplocaceae

Symplocos microstyla

Vulnerável

Velloziaceae

Vellozia asperula

Vulnerável

Tabela 2: Lista das espécies de pteridófitas ameaçadas de extinção em Minas Gerais (segundo Lista da Flora de MG da Biodiversitas de 2007), com sua respectiva categoria.

Famílias

Espécies

Categoria de Ameaça

Anemiaceae

Anemia glareosa

Vulnerável

Aspleniaceae

Asplenium campos-portoi

Vulnerável

Aspleniaceae

Asplenium mourai

Vulnerável

Culcitaceae

Culcita coniifolia

Criticamente em Perigo

Dennstaedtiaceae

Paesia glandulosa

Em Perigo

Dicksoniaceae

Dicksonia sellowiana

Vulnerável

Lindsaeaceae

Lindsaea virescens  var. virescens

Em Perigo

Lycopodiaceae

Huperzia erythrocaulon

Em Perigo

Lycopodiaceae

Huperzia rubra

Criticamente em Perigo

Lycopodiaceae

Lycopodiella benjaminiana

Criticamente em Perigo

Polypodiaceae

Cochlidium pumilum

Criticamente em Perigo

Polypodiaceae

Micropolypodium perpusilum

Criticamente em Perigo

Pteridaceae

Eriosorus flexuosus var. flexuosus

Criticamente em Perigo

Pteridaceae

Eriosorus insignis

Criticamente em Perigo

Pteridaceae

Eriosorus sellowianus

Em Perigo

Thelypteridaceae

Thelypteris ireneae

Criticamente em Perigo

Espécies endêmicas da Serra do Caraça

Segundo Oliveira (2010), nos campos rupestres dos topos da Serra do Caraça ocorrem 11 espécies endêmicas de angiospermas que estão restritas aos picos do Inficionado, do Sol, Canjerana e Carapuça. As espécies são: Anthurium sp. nov., Aspilia diniz-cruzeanae, Heterocondylus macrocephalus, Hippeastrum sp. nov., Lepanthopsis vellozicola, Lepdaploa gnaphalioides, Paepalanthus leucoblepharus, Paepalanthus suffruticans, Sauvagesia ericoides, Symplocos angulata Symplocos microstyla. Destas 11 espécies, apenas Lepanthopsis vellozicola e Symplocos microstyla estão em uma lista de espécies ameaçadas de extinção.

Plantas úteis nativas do Santuário do Caraça

(Maria das Graças Lins Brandão)

Pelo Santuário do Caraça, na época conhecida como Ermida Nossa Senhora Mãe dos Homens, passaram Langsdorff (1816-1817), Saint-Hilaire (1817), Spix e Von Martius (1818), Werner (1818), Sellow (1819), Riedel (1824-1825), Claussen (1834), Bunburry (1834) e Ule (1892). Enquanto estavam lá, estes naturalistas coletaram muitas amostras das plantas, que se encontram hoje depositadas em Museus de História Natural e Jardins Botânicos europeus. Os registros deixados por esses naturalistas revelam a riqueza da vegetação nativa do Caraça, como o registrado pelo botânico francês Auguste de Saint-Hilaire. Este naturalista permaneceu por alguns dias hospedado na Ermida e subiu um dos picos, provavelmente o pico do sol. Sua excursão foi muito proveitosa, conforme ele mesmo escreveu:

“Voltei à ermida com setenta espécies de plantas que ainda não possuía e passei a noite a descrever as partes mais delicadas de um grande número delas, ao clarão avermelhado de uma lâmpada fraca.”

Auguste de Saint-Hilaire

Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, 1830

Posteriormente, já de volta à França, este mesmo autor atestou a riqueza da flora caracense:

“Com exceção da Serra do Caraça e da Penha, na província das Minas, a restinga vizinha da Cidade do Cabo Frio, talvez seja, para a Botânica, o ponto mais interessante que eu tenha visitado até então.”

História das Plantas mais Notáveis do Brasil e do Paraguai, 1824

Dezenas de espécies citadas pelos naturalistas compuseram a Farmacopeia Brasileira, 1ª edição, publicada em 1926, devido à sua importância médica (BRANDÃO et al., 2008). Outras foram usadas por décadas pelas empresas farmacêuticas na preparação de seus produtos (BRANDÃO et al., 2010). Várias dessas espécies são nativas do Santuário do Caraça e de seu entorno, conforme demonstrado na Tabela 1.  É importante esclarecer que, mesmo que determinada espécie seja encontrada em outros locais do Estado e do País, o relevo, altitude e climas típicos do Caraça certamente promovem a produção de substâncias químicas únicas, próprias da planta da região. Esta imprevisibilidade faz com que a flora nativa daquela região seja ainda mais rica e promissora.

As observações dos naturalistas representam hoje instrumentos preciosos para o desenvolvimento de novos produtos a partir dos recursos vegetais do Brasil. Raras plantas citadas por eles foram submetidas até o momento a estudos farmacológicos, mas é interessante observar que todas as espécies avaliadas demonstram resultados positivos. Algumas ações confirmadas referem-se a sambaibinha (Davilla elliptica A. St.-Hil.) como anti-inflamatório;  quinas (Strychnos pseudoquina Remigia ferruginea) e orelha-de-onça (Cissampelos ovalifolia DC.) como antimalárico, capeba (Piper umbellatum L.); e casca d’anta (Drimys winteri J.R.Forst & G. Forst) como analgésico (BRANDÃO, GRAEL & FAGG, 2011).