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O Padre João Chanavat, C.M., nasceu na França em 1840 e veio para o Brasil em 1865. Tanto no Caraça como em Mariana foi professor de Dogma, Moral e Direito Canônico, em cuja aula aconteceu o incidente com o Imperador Dom Pedro II.

Toda a confusão se deu por causa da questão do Placet, a necessária aprovação régia para os documentos pontifícios, antes que estes fossem acolhidos e lidos no Brasil. Ademais, a Questão Religiosa que levou à prisão os Bispos de Olinda e do Pará, Dom Vital e Dom Macedo, entre 1871 e 1875, ainda estava no ar, deixando o ambiente das relações entre a Igreja e o Império um pouco tenso.

O próprio Dom Antônio Ferreira Viçoso, C.M., bispo em Mariana de 1844 a 1875, protestou firmemente contra a Questão Religiosa, não se eximindo, nem mesmo pela avançada idade, de se manifestar contra as arbitrariedades do Império contra a Igreja: “Somos 12 Bispos católicos no Brasil, intimamente unidos, e sujeitos ao Sumo Pontífice, como os 12 Apóstolos estavam a São Pedro. O nosso crime (ou a nossa glória) é esta sujeição, união e obediência ao Papa. Ao escrever e protestar esta minha adesão, chega o correio oficial de 4 deste janeiro com a notícia da prisão do Sr. Bispo de Pernambuco (...). Senhor, Vossa Majestade sabe que não tenho cavalos nem carruagens que me possam ser tiradas. Também não me podem prender em calabouço, porque em calabouço estou metido, sendo Bispo há 30 anos, e tendo de idade quase 90. Pôr-me-ão em liberdade se me tirarem desta masmorra do Bispado, ainda que lhes pareça que me mandam para outra pior prisão. Inspire Deus a Vossa Majestade e a seus Ministros pensamentos de paz (...) em circunstâncias tão críticas como estas em que nos achamos”.

No Caraça, visitando a aula de Direito Canônico, Sua Majestade perguntou ao aluno Rodolfo Augusto de Oliveira Pena sobre o que estava sendo ensinado sobre o Placet. Em resposta, o seminarista disse que o Placet era contrário aos ensinamentos do Concílio Vaticano I.

Pedindo explicações, o Imperador escutou: “Há 2 poderes, o eclesiástico e o civil, e ambos vêm de Deus. Sobre o segundo, as opiniões divergem: imediatamente ou mediante o povo. O poder eclesiástico é superior ao civil, porque tem objeto mais nobre, espiritual, sobrenatural, o bem das almas, e extensão territorial maior, pois abrange o mundo todo. O poder civil tem por objeto o bem temporal e se limita a uma nação particular. Estes 2 poderes são distintos e livres na sua esfera”.

Depois de grande silêncio, Dom Pedro II perguntou: “E nas questões mistas?”. E o próprio professor Padre Chanavat respondeu: “Para estas, a decisão pertence à Igreja!”.

“Protesto!” – foi o grito do Imperador – “Como chefe do poder civil e defensor da Constituição Brasileira, protesto contra esta doutrina”.

A discussão, porém, não se alongou. O Padre Clavelin, que acompanhava o Imperador na inspeção das aulas, preocupado com a confusão que ia se formando, desconversou e encaminhou o Imperador para que continuasse a visita ao Colégio.

No entanto, pouco depois, no horário do recreio, Dom Pedro passeava novamente com o Padre Clavelin e acabou se encontrando com o Padre Chanavat, que não perdeu a oportunidade de dizer: “Não admito o protesto de Vossa Majestade. É escandaloso um Monarca católico protestar contra a Doutrina da Igreja diante de um Seminário Maior”. Diante disso, o Monarca apenas replicou, antes de continuar sua visita com o Padre Superior: “Sou mais católico que o senhor. Sou católico tolerante, ao passo que o senhor é intolerante”.

Em Ouro Preto, perguntado sobre o incidente no Caraça, Sua Majestade, reconhecendo que não poderia ser outro o ensinamento ministrado no Seminário, apenas respondeu: “O Padre Chanavat é um sacerdote digno da batina que veste e da cátedra que ocupa”.

 

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