
“Pinheiros era antigamente a fazenda do Caraça. Bem cultivado, o seu rico terreno fornecia ao Colégio hortaliças e cereais. Era também o berço dos carneirinhos e cabritinhos, o domicílio das vacas de leite, das mulas de carga. Foi nos Pinheiros que nasceu o bisavô da pequena Garrincha, a malfadada burrica, em cuja sela, temida mas macia, o Superior acomodava, paternalmente, para despachá-lo, o aluno vadio ou rebelde que se não amoldava à disciplina do Colégio.
Só resta da histórica fazenda um muro de quase cem metros de comprimento. Só sobrevivem alguns pinheiros, cujos pinhões, assados na brasa, os turistas se deleitam em comer, ao clarão de uma fogueira. Tombou quase todo o pinheiral, mas tombou gloriosamente. Deram a sua vida os robustos pinheiros golpeados pelo machado do lenheiro, para se transformarem em canudos e continuarem, na abafada prisão do órgão do Padre Boavida, o seu canto solene, tantas vezes entoado ao ar livre, em louvor a Deus e à Senhora Mãe dos Homens, quando os fortes ventos das tempestades caracenses lhes vinham sacudir os ramos em forma de pomposos candelabros.
Tipicamente caracense, a ilha pitoresca dos velhos pinheiros. Solene e religioso, o silêncio de seu deserto. Majestosos e severos, os horizontes que se descortinam aos olhos do visitante”
Padre Pedro Sarneel, C.M.
Guia Sentimental do Caraça, 1953