Pensei muito antes de escrever esta página, mas a consciência me exige devido ao imenso carinho que de todos recebi desde o primeiro dia que aqui cheguei, há dois anos e meio, no dia 01 de fevereiro de 2008. E nem padre eu era...
Cheguei meio que sem saber o porquê e o pra quê... Os meses foram se passando e, junto com eles, muitas pessoas, de perto e de longe, do Brasil e do estrangeiro, homens e mulheres, jovens, crianças e adultos... visitantes e hóspedes!
A cada um que chegava, uma vida se me apresentava: o desafio da aproximação, a beleza do dar-se a conhecer, a experiência de escutar e partilhar... Uma proximidade ou, em muitos casos, uma amizade que ia sendo construída. “Irmanamento”, afeto caracense!
Andando para cá e para lá, mas ainda sempre no Centro Histórico, pois mato não me via, nem trilhas me recebiam, fui vendo o Caraça e deixando que ele me olhasse... Vi refeitórios, vi Igreja, vi adro, vi biblioteca, vi arquivo, vi lobo... Vi principalmente espaço! E os ocupei, esperando que esta fosse a vontade de Deus a meu respeito aqui no Caraça.
E achei meu lugar: ficar com o povo e com o lobo, com o lobo por causa do povo e com o povo também em vista do lobo... As noites aí foram pequenas... Horas se passaram entre prosas e risos, casos e causos, histórias e partilhas... Amizades nasceram... Algumas até casei... com outras troquei endereço... outras visitei... outras não vi mais...
Com o advento da internet nesta tantas vezes secular Serra, veio também a ideia do site. www... O Caraça, tão antigo e tão lentamente histórico, precisava adentrar este novo mundo, tão inusitado e tão rapidamente desenvolvido... Suas belezas precisavam ganhar espaço virtual... sua magia precisava transbordar dos vales e montanhas do Espinhaço para o mundo, sua história precisava oficial e institucionalmente ser contada de uma nova forma e com novo entusiasmo...
Os horizontes assim iam se abrindo... e minha vida foi fazendo parte desta história...
Um ano depois de minha chegada, veio-me a nomeação como Cura, primeiro responsável pelas Comunidades católicas ligadas ao Caraça. Um outro mundo!!! Tão lindo e atraente quanto o do Santuário... Igrejas e Comunidades mais velhas que a antiga Ermida do Irmão Lourenço, sem, no entanto, ter perdido a vitalidade do carisma e da fé de seus fiéis!
Santana do Morro, marco da negritude regional e da libertação da escravidão... Sumidouro, de ambiente rural, marcado pelo Caraça nos muitos ofícios que seus filhos aqui por séculos desenvolveram... Brumal, do glorioso Santo Amaro, com sua Igreja pingando a ouro e com seu povo encantador e piedoso, suas liturgias muito bem cantadas e participadas... Barra Feliz ou São Bento, de nomes variados e de povo acolhedor, que preza pela bela liturgia e vive com maturidade sua fé, sob as bênçãos da Imaculada Mãe de Deus...
E tão inesperadamente quanto se possa imaginar, uma ligação mudou os rumos e as alegrias de meu coração: a diretora da escola me convocava, acho que foi mais que um convite, para dar aula de Filosofia para o Ensino Médio... Aceitar ou não... foi a questão de muitos dias, pela qual muitas pessoas foram consultadas.
Aceitei, até que outro professor aparecesse, conforme disse à diretora. Mas como foi bom ter aceitado! No ano seguinte, eu era o primeiro a fazer questão de continuar... mesmo que outro professor aparecesse...
Quanta experiência nova, quanta vida nova encontrada, quanta prosa amiga!!! Quantos jovens!!! Jovens como todos e em toda parte... Jovens!!! E como foi bom estar no meio deles!!!
Mas chegou a hora da transferência... tão inesperada quanto repentina! Os superiores precisavam de alguém para o Vale do Jequitinhonha... e me foi feita a proposta, aceita com disponibilidade de coração, não sem tristeza, e com entusiasmo missionário, apesar dos muitos projetos alimentados para o Caraça e as Comunidades do Curato.
Dois anos e meio: de 01 de fevereiro de 2008 a 04 de julho de 2010. Cheguei diácono, saio padre... Cheguei sem saber o que fazer, saio deixando muitos projetos inconclusos e muitos outros apenas no sonho... Cheguei sem rumo, saio com belos caminhos trilhados... Cheguei sem conhecer ninguém, saio levando nomes, endereços, emails... histórias, sonhos e projetos... tristezas, derrotas e dores... saio carregando AMIGOS e sendo por eles sustentado.
MUITO OBRIGADO A TODOS!!!!
Pe. Marcus Alexandre, C.M.
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